N. B. Á precedente carta fizeram varias folhas de Portugal a honra de a reproduzirem, liberalisando por esta occasião ao autor testemunhos de benevolencia, que para toda a vida o empenharam em agradecimento.
¡É tão suave para um homem o sentir-se amado! ¡e amado por espiritos distinctos! ¡e amado, até ao ponto de lhe supporem mais de virtudes e meritos do que em realidade possue, e ha-de nunca possuir!
Ainda a risco de ser havido por vaidoso, o autor succumbe á tentação de apresentar aqui a seus leitores, isto é, a muitos outros amígos seus, uma das mais floridas e ricas mostras de tão parcial e enternecedora benevolencia; é o preambulo que á predita carta pôz O Pharol, folha verdadeiramente notavel por sua litteraria elegancia, pelo fogo e independencia de seus juizos, pela sua aspiração forte e constante para o Bello.
A proverbial severidade das criticas do Pharol faz ainda sobre-sahir para a gratidão o preço do que se vai ler. ¡Quantas feridas e penas d’alma se não suavisam e curam com o balsamo de expressões taes!
XI
Artigo extrahido do numero 10 do «Pharol» periodico de Lisboa
O Senhor Antonio Feliciano de Castilho e os Michaelenses
«Todos sabem que o sr. Castilho tem titulos valiosos á admiração e ao respeito da Patria, que elle tem sempre honrado e servido com a sua dedicação e com o seu genio. Vivos andam na memoria de todos, os nobres exforços que elle tentou, para rehabilitar as Lettras portuguezas, e trazer a formosa lingua nacional á competencia com os mais ricos, flexiveis, elegantes, e expressivos idiomas do mundo. Sabidos e decorados, se multiplicam, mais pela voz que pela imprensa os harmoniosos trechos do poeta mais sonoro, mais sabedor, mais correcto, se não o mais inspirado dos poetas nacionaes contemporaneos.
«Como os grandes genios, o sr. Castilho tem purificado a sua alma pelas amargas provações da adversidade. Como todos os grandes talentos, tem visto os invejosos e mesquinhos urdirem-lhe no silencio as insidias, com que a mediocridade se desforça do talento.
«A sua corôa de poeta não se tem afeminado com as complacencias de uma vida descuidosa e opulenta. Não é o poeta funccionario, com avultadas pensões para entoar cantos cortesãos e mentidos. Não é o poeta-agitador, fazendo servir as inspirações do estro á apotheóse dos corrilhos de facção. Não é o poeta-aristocrata, dedilhando a lyra por elegancia, e entoando os dithyrambos da indifferença e da sociedade. É o poeta-poeta; é o homem que canta, porque nasceu para cantar; que ama o Povo, porque o Povo é grande; que o não adula porque não espera d’elle recompensas faustosas. É o homem que respondeu ao ostracismo, com que lhe celebraram a reputação, indo contar aos Michaelenses, que o acolheram, não os queixumes amargos do ressentimento, mas as maravilhas da nova civilisação; que levantou ali um brado generoso de melhoramento physico e moral; que falou áquelle Povo dócil e industrioso a linguagem florida e eloquente da Poesia, para lhe apontar as novas sendas do Progresso; e que teve a gloria de crear mais prosélytos com os seus hymnos de paz, com as suas homilias ferventes, do que muitos estadistas com as suas portarias severamente formuladas, com os seus orçamentos capciosos e inextricaveis.