[Pag. 47], lin. 14. Diario do Governo

Refere-se Castilho ao Diario como propagandista nato de sans doutrinas. É preciso notar que até certo prazo a folha official teve entre nós uma feição litteraria, e não se limitava a simples registo impresso da chancellaria governamental. Era superintendida por um redactor, persona grata ao Ministerio reinante, sujeito illustrado e habil; publicava noticias estrangeiras, artigos de litteratura, polemicas serias, etc. Por isso o nosso poeta dizia que o Diario devia e podia entrar na propaganda de theorias civilisadoras, mais e melhor que outras folhas.

[Pag. 63], lin. 4, Ayres de Sá.

Ayres de Sá Nogueira, irmão do celebre Bernardo de Sá, Visconde de Sá da Bandeira, e depois Marquez, e de outros não menos prestadios cidadãos, figurou em Portugal como um dos maiores fautores da Agricultura e das industrias nacionaes. Como Vereador, como Deputado, como particular, empenhou-se toda a vida nos progressos publicos. Foi uma geração notavel esta familia de homens bons, valentes, dedicados, honestos, impetuosos para o bem. Castilho, amigo particular de todos elles, apreciava-os no muito que valiam.

[Pag. 91], O Clero e as mulheres.

Se jamais houve doutrina bem orthodoxa, e philosophica, e social, é esta sobre o provimento dos Bispados e das Parochias, que eu expuz e provei, mais pelo gosto de expôr e provar verdades, do que por me persuadir que por ellas se havia de fazer obra. Em tal campo suppunha eu impossivel achar adversarios; esquecia-me dos guerrilheiros.

Um periodico de S. Miguel chamado O Cartista, pôz-me ... supponho que por impio. Um periodico de Lisboa (cuido que se chamava aquillo A União) disse ao publico, sêcca e esparvoadamente, em ar de quem lhe denunciava uma coisa medonha, que eu viera a S. Miguel pôr-me á frente de valentões, para pugnarmos pela eleição popular dos Bispos. Claro está que não respondi, nem pessoa alguma respondeu, á União de Lisboa, nem ao Cartista de S. Miguel.

No Clero, consta-me que não faltaram contra mim murmurações; todavia, não chegaram á suppuração da Imprensa. Com essas devia eu contar, e contava. Se não houvesse clerigos indoutos e ruins, para honrarem com o seu odio a minha proposta, tambem esta, por falta de materia prima, teria deixado de existir.

Pelo que respeita á emancipação politica das mulheres, não só nenhum homem me fez ecco, se não que todas quantas senhoras ouviram o alvitre, fizeram côro contra elle. Esta sua opposição, parecendo provar muito e muito em desabono da minha these, provou muitissimo a favor d’ella; recusam o seu quinhão de liberdade, porque a não apreciam; e não a apreciam, porque ainda a não provaram. O que muito sensatamente se pode portanto jurar contra a innovação, é que veio antes do seu tempo proprio, mil annos; quando menos, bons quinhentos.

Não importa. O que é chymera, algum dia será realidade, como infinitas realidades de hoje algum dia hão-de ser chymeras.