Para os que hoje entre nós ignoram quem foi Gessner, duas palavras biographicas:
Nasceu em Zurich em 1730. Homem bom, quanto se pode ser, benefico, optimo marido, optimo cidadão começou por typographo; o trato intimo com as lettras elevou-o ao conhecimento das Lettras; graças á sua applicação e perseverança, tornou-se Gessner um verdadeiro filho dilecto do Publico: já pela graça e singeleza dos seus idyllios, já pela moral pura e santa que todos elles respiram. Em toda a parte onde appareceu recebeu provas de apreço, até das testas coroadas. Falleceu em Zurich a 2 de Março de 1787.
A celebre Madame de Genlis conta da seguinte maneira uma sua visita ao poeta suisso:
«Tinha-me Gessner convidado para o ir ver á sua casa de campo; e eu estava curiosissima de conhecer a mulher com quem elle casára por amor, e que o soube inspirar. Imaginava-a uma especie de pastorinha encantadora, e phantasiava a habitação de Gessner como uma choupana elegante, circumdada de vergeis e flores; ali, segundo eu pensava, só se bebia leite, e se pisavam pétalas de rosas Chego, atravesso um resumido quintal, cheio de cenoiras e couves; isto, confesso, começou a perturbar seu tanto os meus devaneios bucolicos e idyllicos. Entrei na sala, e ¿que vejo? No meio de uma fumaceira densa de tabaco, avisto Gessner a fumar cachimbo, e a beber cerveja; ao lado d’elle sentava-se a mulher, com a sua grande touca, e a fazer meia. O acolhimento de ambos, a doce união d’aquellas almas, o seu affecto para com os filhinhos, a singeleza de tal quadro, tudo isso me pintou ao vivo os singelos costumes pastoris que o poeta costumava cantar. Assisti pois a um idyllio, presenceei a edade de oiro, não em poesia brilhante, mas sob o seu aspecto vulgar e desataviado.»
[Pag. 27], lin. 8 e 12. Klopstock.
Klopstock (Pedro Gottlieb) autor do poema epico Messiada, nasceu em Quedlinburg(?) a 2 de Julho de 1724. Cursou as melhores escolas superiores da Allemanha, concluindo na Universidade de Leyde o curso theologico. Desposou uma notavel e talentosa mulher, Meta Moller, fallecida em 1758. Foi muito protegido por el-Rei Frederico V, de Dinamarca. Os merecimentos d’este poeta como linguista e estylista são muito apreciados dos entendedores. Castilho elogiava com enthusiasmo a Messiada. Este denominado Pindaro da Allemanha falleceu a 13 de Março de 1803.
[Pag. 29], lin. 28 Zimmermann.
Allude Castilho ao celebre livro Da Solidão, por Zimmermann; obra de pensador, evangelho para solitarios, consolação para tristes; livro bom e optimo, que é lastima se não reproduza entre nós em traducção. Castilho prezava muito esta obra, lia-a, relia-a, e fazia-a estudar aos filhos.
[Pag. 36], lin. 34 e seguintes até ao meio da pag. 37.
Esse admiravel periodo que principia: N’uma palavra: um observador attento, é de eloquencia rara. Diz um critico entendedor o seguinte: Este trecho só um cego o podia escrever; ha ahi uma observação muda, uma attenção intelligente, que só o sexto sentido que possuem os cegos de talento sabia expressar. Percebe-se a contenção do ouvido do corpo, e ainda mais a do ouvido da alma. É uma esplendida manifestação de forma e de pensamento; é a linguagem do silencio das noites; é a intuição das trevas.