Maria, em verdade, não era feiticeira; não o podia ser; não as ha; não pode havel-as.
Foi crença de pagãos a que admittia pactos secretos com espiritos malfasejos, para se obrarem no mundo maravilhas. O Christianismo não a acceitou, que seria negar peremptoriamente a Providencia, e renunciar Deus, renunciando a rasão.
Nem a tradição respeitavel da Egreja, nem os escritos dos Santos Padres e Doutores, nem as Decisões dos Concilios, nem os Theólogos, nem, sobre tudo, as Escrituras santas, deram jámais o seu assenso a essas fabulas despresiveis, filhas da velhacaria interesseira, ou da ignorancia crédula, ou, mais ao certo, de uma e de outra.
De balde nos argumentarão com as penas estabelecidas contra os que professem a feitiçaria. Nós mesmos, que na feitiçaria não acreditamos, defendemos por sensatas e justas essas penas; porque todo o individuo que se inculca alliado, e braço direito de potencias invisiveis e maléficas, para alterar, em muito ou em pouco, a natural corrente das coisas, calumnía a Deus, mente a si e a seus semelhantes em materia grave e de consequencia; arroga-se, de feito, e pelo terror, um predominio que lhe não cabia; perturba, por querer, a sociedade; lança n’ella novas sementes de fanatismo e crimes.
Uma de duas: dando-se por alliado dos demonios, ou não o crê, ou crê-o. No primeiro caso, abusa tirannicamente da rudeza e pusillanimidade alheia. No segundo, teve necessariamente a criminosa intenção de pactuar com os genios das trevas; quiz dar-lhes a alma, a troco do privilegio de malfazer; suppôz ter consumado este pacto nefando, e obrou em conformidade com a sua persuasão.
Uma e outra coisa, não podiam as Leis ecclesiasticas, e as civis, deixar de punir rigorosamente.
Maria não era feiticeira. ¿Mas dava-se ella por feiticeira? Não era esse o processo; não se provou; não o sabemos.
Mas, quer se desse quer não, quer tivesse, quer não, abusado de sua alma negociando-a com o inferno, ou dos espiritos de seus visinhos, submettendo-os ao influxo do seu querer, sempre ficava sendo, no conceito da gente rude e desallumiada, um ente muito infeliz para si, para os outros mui perigoso e mui funesto.