Era assim que, na sua timorata phantasia, indispensavelmente a devia representar a mulher, cuja vida, já de annos largos, era toda caridade, esmolas, e orações. ¿E que fez? uma grande façanha moral; uma sublime loucura de generosidade.
Só escudada de suas orações, resolveu entrar em duello com inimiga, em seu entender tão medonha e tão possante, que tomar-se com ella era tomar-se com o proprio inferno. Duas palmas lhe promettia a consciencia com aquella victoria, se a ganhasse: redimir uma possessa do captiveiro diabolico, restituindo-a á Egreja, ao marido, e a si mesma, á amisade dos visinhos, á quietação interior, e á esperança do Ceo; e desafrontar de adversidades os que as estavam por via d’ella padecendo, ou podessem para o futuro padecer.
Eis aqui a magnanima loucura que a seduziu. Aventarmos-lhe outro intuito não é possivel. Das intenções mais santas brotou o homicidio.
¡Mysterios da Providencia! não os sondemos. A morte appareceu ali como o raio, sem ter sido chamada, nem prevista.
¿Quem reuniu jámais setenta testemunhas, e na propria casa, e com luz, e em terra populosa, para assassinar?!...
¿Quem, para assassinar, empregou jámais, como unicas armas, resas de longas horas, e mãos inermes?!...
¿Que mulher poderia arrancar a existencia, por querer, a outra mulher, quando n’essa existencia fosse envolta a de um terceiro ente inda não nascido?!...
¿Desde quando se mudou a natureza humana, a ponto de entrar o pensamento e proposito do homicidio mais nefando, mais covarde, mais inutil, e mais perigoso, n’um coração que era todo benevolencia e caridade?