Deixae-o ir, deixae-o ir, que é a Providencia quem o enviou; é Ella quem lá de cima o sustenta pela mão, e lhe aponta por estrada o Universo. Deixae-o ir, que ninguem o deterá; lançae flores diante de seus passos, apóz elle canticos, por cima da sua cabeça bençãos.
Quanto mais derrama com as mãos ambas, tanto mais vai cheio o seu regaço. Quanto mais colhe, tanto mais semeia. Quanto mais liberalisa aos filhos, tanto mais prodigalisará aos netos. Quanto mais se robustece, tanto mais se humanisa. Quanto mais se nobilita e deifica, tanto mais familiar e plebeu se torna de hora a hora.
Applicae attentamente o ouvido d’alma. ¿Não sentis um rumor geral nas intelligencias, com que a vossa sympathisa, e que a faz mysteriosamente agitar-se como a sensitiva? ¿um rumor, como aquella harmonia, que o sublime sonhador da Grecia percebia nas espheras celestes? ¿um frémito de desenvolvimento e medrança, como se ouve, ou se cuida ouvir, pelas noites de verão, no seio vegetativo da Natureza?
Esse frémito, esse rumor sem estrondo e sem nome, ¿quem o produz? São milhões de pennas, a escrever em milhões de retiros, por toda a face da terra; são milhões de espiritos a meditar; são milhões de mãos a esfolhear livros; são milhões de olhos a revolver a Natureza, desde as entranhas da terra até á abóbada dos Ceos; desde o insecto de horas, até á Sempiterna Essencia; desde as origens mais remotas das coisas, até aos ultimos futuros das sociedades; são milhões de erros, preparando, como adubío, o solo para muito maior numero de verdades frutiferas; são os passos dos viajantes que perlustram o globo; são as vozes infantis, que solletram n’uma infinidade de escolas; são os colloquios familiares a alarem-se para não sei que alturas; é a Imprensa, arvore da Sciencia, a chover de dia e noite frutos e flores, e de dia e noite a carregar de mais flores e mais frutos; são os idiomas a permutarem entre si noções e descobrimentos; são os direitos e deveres a quererem passar de abstracções para principios, de principios para Leis, e de Leis para obras; são os elementos de uma felicidade sempre longinqua, a confluirem para embrião; em summa: é o Saber, a sêde e a necessidade do Saber, a transsudar-se de toda a terra, como um vapor vago, e a recahir sobre toda ella como um orvalho fecundo e esplendido.
Ora pois: n’esta obra providencial, para todos ha tarefa; e, com salario ou sem elle, todos a devem preencher. Ha tarefa para os Cabeças do Estado, que, segundo dizem, são em grande parte feitura nossa; e ha tarefa para o Povo, que somos nós.
D’onde se segue, que, mediata ou immediata, directa ou indirectamente, muito podemos; e se muito podemos, muitissimo devemos a favor da publica instrucção.
De Jupiter é o principio—diziam os poetas antigos. Do Povo é o principio—podemos nós dizer. Desengane-se elle, uma boa vez, a eleger os seus representantes, a tiral-os de sua consciencia, a escrevel-os de seu punho, em vez de os acceitar do bolso (ou da bolsa) de nomencladores interesseiros; e logo conseguirá, não um milagre, se não mil; não alguns bens, se não todos os bens, e a felicidade.
Constitua o seu Parlamento por modo, que n’elle se possa mirar, conhecer-se, e amar-se; venerando Senado, cheirando mais á terra, aos cereaes, e ás hortas, que ás esteiras palacianas, aos theatros, e aos toucadores; mais sollícito de despachar, que de requerer; mais prateado de cans, que doirado de medalhas; mais obreiro, que orador; e mais eloquente nos feitos, que nos ditos; em summa: tire-o do seu seio, da sua maioria e melhoria, dos cultivadores, dos amigos, dos parentes da terra; deixe-os trabalhar, como elles sabem e costumam, e aguarde quieta e animosamente os resultados.