A unica razão, por que um Povo excede a outro Povo, e um seculo vale mais do que outro seculo, é a Sciencia avantajada. Bem sei que estas verdades correm já communs pelos livros e pelas folhas quotidianas, chegando a achar-se a confissão d’ellas na bocca dos que menos possuem de Sciencia. Todavia como a Opinião, de rainha do Universo só tem o nome, e, se algum dia governou, muito ha que a fizeram abdicar, obrigação é de todos, e de cada um, conspirar para a fazermos subir de degrau em degrau até outra vez se assentar no throno. Pelo que, ainda que a necessidade do Saber corra já como aphorismo de bocca em bocca, n’este ponto se ha de bater e teimar, até se convencerem e converterem os proprios Governantes e Legisladores, que são sempre (mal peccado) os ultimos a virem metter a cabeça no Jordão.


Tempos houve (na historia de todas as civilisações ha esse periodo equivoco e opprobrioso), houve tempos, em que os poderosos fizeram do saber um privilegio para si, ou para os seus; mas sempre, em ultima analyse, para si.

As ideias vegetavam então, e se engendravam, enclausuradas como as feras nas coutadas dos senhores; e ai do plebeu mesquinho que n’ellas posesse mira.

Para mais segurarem o monopolio, chegaram até a santifical-o. No Egypto os livros recatavam-se no regaço e debaixo do manto de Isis. Antes e depois do Egypto, muito Oriente, com ter sido aquella região o berço da civilisação, como é o do sol, encerrou as luzes entre os idolos e os sacerdotes, no silencio de seus pagodes, nos recessos mais intimos e profundos dos seus palmares. No seio mesmo da Religião da egualdade, mais de uma vez se manifestou em classes poderosas essa tendencia usurpadora, que as fazia, ao menos temporaria e apparentemente, mais possantes.

Todos estes factos comprovam que o saber foi sempre havido pelo que é em realidade: por uma força, e uma potencia; e, como tal, ambicionado e enthesoirado pelos mais astutos. A pusillanimidade, a perguiça, a rudeza, a credulidade, a propria penuria e miseria das turbas subjacentes, ajudavam aos usurpadores a manter-se n’aquella posse.

Entretanto, a obra de uma Providencia redemptora progredia caladamente. O Saber, sem mão nem autor visivel, ia-se filtrando de camada em camada, até á plebe infima. Os instinctos intellectivos, semelhantes a aquellas sementes cereaes, que ainda hoje se desencantam em sepulcros de dois e tres mil annos, e que apóz tres mil annos ainda não perderam a sua virtude germinativa, e sob influxos favoraveis se desenvolvem e vicejam, os instinctos latentes na alma do Povo começaram a desabrolhar, verdes, vivazes, medrançosos, e taes, como das gramineas (que são a plebe dos vegetaes) diz o grande Naturalista sueco: «Quanto mais calcadas, tanto mais multiplicativas».

A luz, crescendo de seculo em seculo, tinha fendido, estalado, e feito cahir em pedaços a lanço e lanço, o vaso terreno e mesquinho em que a haviam encerrado. O dia de Deus era nascido. Elle cresce, e cresce, e já agora crescerá sempre, porque para elle não ha occaso, e o zenith para onde tende é na Eternidade.

O Saber já não é aristocratico, nem sacerdotal, nem de classe alguma; o Saber é de tudo que tem alma; é do genero humano.

O Saber foi o quinto Evangelista, e o decimo-terceiro Apóstolo, mandado percorrer mundo para radicar e consumar o dogma santo, e já agora imprescriptivel, da egualdade. Deixemol-o ir na sua missão, que a ha-de preencher. Se o esperam ainda trabalhos, mais certas o esperam as corôas. No que já andou, colheu as forças para o que tem de andar. Nos martyrios que soffreu, e de que sahiu illezo, se conteem os seus futuros de triumpho.