VII. Nas cidades, villas, e aldeias grandes, conviria fundar, com uns ou outros dos sobreditos mestres, escolas só para adultos, cujas lições fossem no serão de cada dia de trabalho, e nas manhans e tardes dos domingos e mais dias santificados; obra cuja caridade e moralisação se não pode assáz encarecer.
Estas escolas de adultos devêram principalmente trabalhar desde o descahir do outono, até ao fim do inverno, quando a Natureza põe férias ás fadigas ruraes. Ahi, o que os vicios e intemperanças da ociosidade haviam de consumir, ¡quão mais bello não será aproveital-o em cheio a civilisação! O camponez, depois de cultivar a terra, cultivará o seu espirito; depois de ter dado á sua Patria riquezas physicas, dar-se-lhe-ha a si proprio melhorado, que é riqueza moral muito maior.
Ninguem ignora os resultados felizes das escolas dominicaes introduzidas em Inglaterra por Bakes, imitadas já, em mais ou menos copia, por todas as nações cultas. Só na Gran-Bretanha se contam para mais de treze mil d’estas escolas, com mais de milhão e meio de discipulos. Nos Estados Unidos os discipulos excedem de um milhão. Na Alemanha não teem conto.
VIII. Cursos especiaes, já de moral e decencia, já de direito politico, já de jurisprudencia usual, e rural, deverão ser regidos com a maior lucidez, amenidade, e graça, por mestres muito idóneos, que para esse fim peregrinem de terra em terra, não se detendo em cada uma senão o tempo indispensavel, e ahi forcejando por attrahirem ás suas prelecções o maior numero de ouvintes de um e de outro sexo; preferindo-se para estes agradaveis exercicios, segundo a estação o aconselhe, o adro, a sacristia, ou a egreja mesma, um theatro, uma sala, ou um jardim. Os hortos floridos eram na Grecia viveiros de philosophia, e os pórticos em Roma seminarios de litteratos.
Todas as seducções se deveriam empregar para attrahir a estes cursos, e, sobre todas, a musica instrumental, podendo ser; ou, quando menos, o canto em commum. Ainda nos lembra como os piedosos cantares, com que os severos Missionarios abriam e cerravam os seus tremendos e apostólicos discursos, ás vezes n’uma egreja, outras n’um arraial, outras n’um souto profundo de castanheiros, com serem umas solfas muito chans e monótonas, singularmente affeiçoavam e induziam os animos de seus profusos auditorios.
IX. As escolas primarias para meninos e homens são muito, mas não são tudo; é forçoso creal-as egualmente para meninas e mulheres, e, com mão não mais avara, multiplicar e remunerar as professoras.
A educação das mulheres, se bem se adverte, contém em si a dos homens. Ellas são no principio, e por muito tempo, as nossas mestras unicas; ellas nos infiltram em todas as edades as suas ideias; no que temos de bom e benigno, foram ellas que nos modificaram á sua imagem; ellas (sem o parecerem) nos educam e dirigem até ao fim. A mulher, convenientemente educada, será melhor mãe, melhor esposa, melhor ecónoma, melhor amiga, mais proveitosa á casa, mais util aos visinhos, mais benemerita da Patria, sem se lhe mostrar; mais querida de todos, e de si mesma.
Ás mães fazem os medicos tomar os remedios que os seus filhinhos de peito necessitam; a virtude benefica lá passa d’ellas para elles disfarçada no suave e candido do leite.