O nosso Parlamento de Lavradores ha-de attender muito a isto: as almas feminis já per si mesmas mereceriam ser educadas; que não será, quando sabemos, tão ao certo, que são ellas as que amamentam as nossas!


X. Se a instrucção é hygiene para a alma, ella lhe serve tambem de medicina.

A sociedade tem, e ha-de ter sempre, criminosos, e, em razão d’elles, a fatal necessidade de prisões. Ora as prisões, quaes as temos e teremos ainda longamente, são ao mesmo tempo um semi-remedio ou palliativo, e um veneno. A Liberdade desvia d’ellas os olhos com vergonha; a Virtude as contempla com terror; a Philosophia cruza os braços aos seus hombraes, e emmudece; em quanto a Justiça lhes chapeia e reprega as portas, e o Interesse individual dos cidadãos approva a obra da Justiça.

O carcere amputa e enterra os membros pobres da sociedade; mas a podridão d’estes membros, posta em commum, desenvolve um contagio moral, que por derradeiro devora tambem aos innocentes, ou aos menos culpados, que as apparencias ou os caprichos da fortuna para ali arrojam muitas vezes.

Nos ares mephyticos do carcere, por todos os poros se aspira o odio dos outros e o desprezo de si mesmo, a selvajaria da linguagem, a bruteza dos sentimentos, a grossaria e obtusidade das ideias.

Tratado como fera, ali o infeliz se compraz de aguçar nos varões de suas grades, e na lágea de sua cama, as garras do seu furor, para um dia grande que elle espera sempre. Em quanto elle não chega, cria para se aturdir uma especie de vertigem voluntaria.

Tinha, por ventura, um só vicio quando entrou; agora é n’um só individuo um feixe de miseraveis: ébrio, immundo, obsceno, jogador, ladrão, falsario, perjuro, calumniador, conselheiro mestre e missionario de insociabilidade, inimigo apostado das Leis, escarnecedor de Deus, e (por desesperação, por que a sua alma deixou de lhe falar) materialista.

A prisão, de que uma eloquente e philosophica penna contemporanea ahi lançou em rasgos mestres um quadro para estudo de legisladores,[1] é um sepulcro infecto de moribundos impenitentes. D’ali não se pode descer senão para o inferno, nem subir se não para o supplicio, nem sahir senão para o desterro, que é supplicio e inferno juntamente, ou para a miseria, para o desprezo, para o crime, veréda espinhosa e pérfida, que outra vez conduz ás suas portas.

[1] O Preso, romance social por Sebastião José Ribeiro de Sá, 1 vol. de 8.º-335 paginas.