¡Oh meus excellentes lavradores! Quizera eu, não que vos arrancasseis do vosso torrão, para irdes ver o que é uma Côrte, e aprenderdes a amar-vos; mas que ao menos a sonhasseis uma vez, tal como ella é, e como são todas: magnifica de marmores e architecturas, rumorejante de festas e musica, trovejada de carroagens, refulgente de gaz, que supprime a noite, alardeando senhores e principes, remirando-se nos enxames de suas damas; mas, no meio de tudo aquillo, esteril, desencantada, e não tirando de si os olhos com medo de os lançar para o futuro...
Pois se fosseis lá com algum pensamento sincero de amor dos homens, com alguma santa loucura de alma desinteressada, d’estas que alguma vez devaneámos na calada das vossas solidões, e que tão faceis foram de realisar; se vos désse em ir mendigar para a civilisação, e para os filhos e netos de nós todos, algum favor muito pequeno, e muito justo, ¡como vos não recolherieis ás vossas poisadas, descrentes e esmorecidos, para nunca mais arredardes d’ellas nem os pés, nem os olhos, nem o pensamento!
Meus amigos, meus amigos, deixae falar os nescios, que tão mal vos querem a vós como a mim; e crêde no que vos repito com a mão na consciencia e nos Evangelhos: para que, do meio das leivas rusticas, nos saiam emfim Deputados representantes da terra, semeemos o juizo, se desejamos colher a felicidade; se não fôr já hoje a hora do desengano, medo tenho de que seja amanhan a de acabarmos.
¿Sabeis o que dizem lá nos seus pagodes estes mexeriqueiros ruins, vossos inimigos e meus? ¿estes ingratos, que, devendo-vos tudo, invejam até o pé do inhâme que semeais para os filhos, e, de vaidosos que são, até a figura humana vos tirariam, se podessem? ¿Sabeis? ¿adivinhais, não o que elles pensam, mas o que elles dizem? Dizem, que no dar-vos este conselho, o unico bom conselho que hoje se vos pode dar, só armo á popularidade, para algum dia me ir d’aqui, Deputado feito por vós, sentar-me triumphalmente n’uma cadeira do Parlamento.
¿Então que lhe quereis? Dão o que teem, e fazem o que podem e costumam.
¡E dizer que ha ainda ferrenhos, que não crêem na jumenta de Balaão!
Não, boa gente, nem vós, quando escolherdes os vossos pares na lavoira, me haveis de nomear a mim, que desgraçadamente o não sou, nem, que o fizesseis, eu vos acceitaria a nomeação. Essas honrarias, já por mais de uma vez as rejeitei; e não foi para me andar agora á caça d’ellas.
¡Eu Deputado!... ¿Para quê?
Aqui, no vosso serão, ou entre outros amigos, n’um colloquio poetico, ou na minha cellasinha phantasiando para um papel alguns amores do coração, tenho o meu préstimo como outro qualquer. Passeio na herdade em que me creei; não tenho medo de me perder. ¡Mas a bordo d’aquella grande náu! ¿Quem me ensinou a mim a sua mareação? ¿E depois ... o enjôo!... ¿Eu na tribuna? ¡eu orador?! Melhor sorte me dê Deus.
Sou muito humilde, ou muito soberbo, para lá subir. Assentae bem isto em lettras grandes na vossa folhinha detraz da porta. Votae em amigos vossos, sinceros e desenganados como eu, porém mais sabedores e praticos, do que eu, de vossas coisas, e mais affeitos ao mundo positivo, que o escrevedor de livrinhos, que metade de sua vida a passa por essas nuvens, e a outra metade entre creanças. Affronta vos faria ao bom-juizo, se vos allegasse mais rasões.