Quando se trata de lavras, não é a andorinha, nem a cotovia, que vós jungís á canga do arado. Assim, não é do poeta, que vós, gente grave e sizuda, farieis o vosso representante; como tambem o não farieis d’esses descendentes da jumentinha de Balaão, que, sendo muito pobres de cérebro, muito mais o são ainda de coração.
A mim já vós me conheceis; mas ¿quereis acabar de os conhecer tambem a elles? Pois ouvi.
Fundou-se ahi uma Sociedade de Amigos das Lettras e Artes, para fazerem, a bem da instrucção primaria e dos officios mechanicos, o mesmo que em vosso proveito faz a Sociedade da Agricultura. Era santo instituto; ¿não era? Pois declararam-lhe guerra, pozeram-lhe nomes, levantaram-lhe testemunhos pela bocca pequena, enredaram com cartas anonymas, que mandaram imprimir n’outras terras, imprimiram outros aleives aqui mesmo, mas com datas fingidas e de longe, porque tamanhas vergonhas eram, que, sem mascara, nem elles as ousariam; peitaram, por baixo de mão, creancinhas desvalidas a desertarem das nossas escolas, para continuarem a apodrecer na ignorancia; aos que eram seus servos, prohibiram-lhes frequental-as.
Quando me eu ia de proposito, viagem de mais de duzentas leguas por esses mares de Christo, para requerer se nos désse aqui um chãosinho em que edificarmos, á nossa custa, uma albergaria para as pobres Lettras e Artes, mandavam elles, atravez de egual Oceano, quem lá fosse pedir que nos indeferissem; quem nos denegrisse bem denegridos; quem patrocinasse e advogasse, por todos os modos (sobre tudo pelos secretos), a causa da ignorancia; quem lidasse por vos perpetuar na condição ignominiosa de servos da gleba, um pouco mais que troncos, um pouco menos que bestas de carga.
—«¿E vingaram esses tramas diabolicos?»—perguntareis vós.
¡Quem sabe! talvez sim; o tempo o descobrirá.
Ahi tendes o que elles são; guapos corações, e guapissimas cabeças para legisladores; admiraveis amigos da terra em que nasceram, ou que os abortou, e do Povo, que sua de trabalho para que elles suem de praseres, que anda nu para que elles se enroupem com arminhos, e cospe sangue nas mãos por elles, que lhe cospem desprezo sobre ambas as faces.
Meus amigos, se queremos ser salvos, é olharmos por nós, e forcejarmos por destecer todas estas cerradas teias de barbarias. Trabalhemos tão activamente, de dia, e ao sol, como elles o fazem de noite, nos esconderijos, com vigilantes expertos e terriveis a guardal-os. Opponhâmos ás mentiras traidoras, e ás cobardes calumnias, a verdade e a franqueza; ao anachronico feudalismo, o seculo XIX, que é o nosso, que é vivo, e que é forte. Nada de violencia; a força bruta nada cria, e ameaça tudo; o incendio, o exterminio, as sublevações, o converter as enxadas em machados, e as arvores, que alimentam, em clavas que derribem, fôra curar a doença com a morte, enredar-se mais nas cadeias, pretendendo sacudil-as, querer subir ao cume, e afogar-se no abysmo.
A redempção, toda a redempção, só Leis sabias, e zelosamente mantidas, nol-a hão de trazer; e é para as termos, que eu vos exhorto e vos supplico vos associeis, para darmos a um Povo, que é e deve ser agricola, umas Côrtes agrárias e um Ministerio lavrador; isto é: a um Paiz, que pode e quer produzir, uma providencia e cultura apropriadas. Pelo menos, façâmos o que de nós depende para o bem, como os inimigos fazem quanto podem para o mal. E depois... sahirá o que Deus quizer.