As pequenas multas em dinheiro arbitradas pela actual Legislação para os remissos que não mandam os filhos á escola, ainda quando á risca se executassem não seriam sufficientes.

Ordene a Lei (e cumpra-se) que se não reconheçam direitos cívicos aos que desprezaram, como brutos, a sua alma, aos que, podendo-o, não quizeram instruir-se, ao menos no ler, escrever, e contar; defenda-lhes o administrarem seus bens, o contratarem, o addirem heranças, o testarem, o exercerem commercio ou industria, até mesmo o servirem; sobretudo lhes véde o casamento; e nos mistéres durissimos da republica, para que hoje se costuma prender e forçar, no serviço das armadas, na milicia (se ainda alguma houver), sejam elles, pois assim o quizeram, sejam elles os preferidos, os condemnados.

Com o medo e terror d’estes castigos, com a esperança e cubiça d’aquelles premios, e, logo por cima, com todas aquellas paternaes e assiduas exhortações; havendo á mão bons mestres, e sendo o ensino (como pode e deve ser) breve, aprasivel, e gratuito; ¿quem duvida de que em cincoenta annos, em vinte e cinco, e em menos, com o dedo se apontaria homem ou mulher, que não soubesse ler, e que não lesse?


N’um tal Povo, assim allumiado, ¿qual seria a sciencia, qual a arte, qual o mistér, que deixasse de florescer?

A terra e as mãos se tornariam mais productivas; os costumes mais concertados; os praseres, mais delicados e vivos; as familias, mais unidas; o trato, mais urbano; a fortuna, mais segura; as Leis, mais obedecidas; a Religião, mais venerada; os direitos e a dignidade do homem cessariam de ser chimeras, e a paz uma utopia.

Só n’um Paiz todo de luz, de trabalho, de benevolencia, poderia fundar-se e manter-se um regimen lealmente representativo, em vez d’estes a-la-moda, a que o nosso publicista europeu, Silvestre Pinheiro Ferreira, não chamava, na candura da sua alma, senão «pseudo-constitucionaes».

Por mim vos juro, minha honrada gente do casal, que, a ter eu a desgraça de ser Governo, e a loucura de querer sel-o, havia de fazer tudo por illustrar o Povo. Não haviam de ser as espadas, que me guardassem; haviam de ser as luzes, que eu tivesse accendido em de redor do Throno, até os confins da Monarchia.

Agosto de 1849

XIV
Oitavo serão do casal