O almanack dos benemeritos e patriotas, nunca de anno para anno o vistes regular, nem de semestre para semestre. Perdestes a fé em patriotismos e virtudes. Com tantos programmas flammantes, como de continuo brotam, chovem, e ventam de todas as partes, ainda não vistes fim nem diminuição á vossa miseria, e perdestes a fé em promettedores. Em summa: em vós mesmos perdestes a fé; e receio... que na Providencia tambem; pois noto que as eleições dos que vos hão-de representar, isto é, dos que vos hão-de salvar ou perder, a vós e a vossos filhos, á vossa freguezia e á vossa Patria, já á revelia as deixais correr. Desprezais votar, ou votais em quem vos dizem, e até em quem vos não dizem. Lançais na urna dos destinos publicos uns papeis dobrados, que nem lestes nem ouvistes ler. Lançail-os pensando n’outra coisa, lançail-os com a indifferença, com que um ocioso distrahido vaí desfolhando ao longo de um regato um ramo inutil, seguindo com os olhos cada folha em quanto cai, e, logo que na corrente desappareceu, esquecendo-a para sempre; ¡como se cada um d’aquelles papeis não fosse um germen de fortuna ou infortunio para nós todos!
Hombridade civica, ou virtude social (perdoae-me que vol-o diga) não a tendes já, ou ainda a não tendes.
Sois n’isto como quasi todos somos.
¿E quem é que assim nos fez, ou nos atenuou, ou aniquilou? ¿A quem havemos de amaldiçoar?
A ninguem.
Foi a fatalidade das coisas. Os primeiros como os ultimos, os Reis como os bagageiros, os estadistas como os idiotas, todos são por ella arrastados.
Bons e ruins, sabios e nescios, poderosos e fracos, agitadores, agitados, e inertes, todos n’esta apparente confusão somos empregados, por um Obreiro invisivel, para um edificio em que desde o principio do Mundo se trabalha, e por esses seculos fora se ha-de ir sempre trabalhando. É uma vasta e immensa Pyramide, cujo vértice ha-de ser no Ceo, e na qual todo o genero humano anda como operario, suando e gemendo porque só vê a pedra bruta em que se cança; mas a traça total da architectura, com que se podera consolar, é o Divino Architecto que a tem escondida em sua mente.
D’aqui, porém, não concluais que se haja de admittir o dogma mahometano, o tenebroso e quebrantador dogma do fatalismo, essa anti-philosophica e insustentavel parodia do dogma augustissimo, fecundo, e creador, da Providencia.
Vâmos, sim, todos e tudo, n’uma torrente infinita, e que sobe sempre; mas todos com entendimento e liberdade; entendimento, para perceber e julgar; liberdade, para optar e fazer, cada um dentro em seus limites circumscriptos.