Logo, assim como na ordem physica o saudavel e o venenoso, o suave e o terrivel, a luz e as trevas, o gelo e o fogo, a atividade e a inercia, a leveza e o peso, o solido e o fluido, o concorde e o discorde, contribuem, por um jogo milagroso de harmonias, para haver dias, noites, estações, plantas, animaes, homens, mundo, e tantos mundos; assim, na ordem moral, esta incalculavel variedade de ideias, de opiniões, de systemas, de affectos, de egoismos e generosidade em todos os graus, de exforços para o bem, de exforços para o mal, de aspirações para a claridade, de aspirações para a escuridão, de instinctos de sociabilidade, de instinctos dissolventes, de pusillanimidade, de virtude, de rudeza, de engenho, de sciencia, de illusões, de sophismas, de absurdos, de verdades, de probabilidades, de prophecias, de experiencias, conspira para que a natureza moral, obedecendo, sem o saber, á Providencia, lá se vá, como cometa enigmatico, composto de luz e envolto de nevoas, progredindo pela sua orbita incommensuravel.

Deixemo-nos de queixumes excusados. Tudo obra e ha-de obrar segundo sua natureza.

A rosa embalsama; a mancinella envenena; o rouxinol canta e poetisa; o tufão brama e devasta; a montanha medita; o valle ri; a praia entristece-se; o Oceano ruge e devora; a rôla ama e dil-o; o reptil desembosca-se, punge, e foge deixando morte; o raio fracassa e pulverisa; a alvorada retinge e floreja; o sol nos diz «Vida»; a lua, «Ternura»; as estrellas, «Immortalidade»; o menino, «Innocencia»; a mulher, «Doçura e heroicidade para sacrificios»; as cans, «Repoiso e reflexão»; a virilidade, «Energia e emprezas»; em suma: o ambicioso, o vil, o avaro, o pródigo, o caritativo, o perseguidor, o tecelão de enredos, o mineiro de verdades, o que se cança a accender luzes, o que se não cança de apagal-as, os que vozeiam: «Para a frente!», os que gritam: «Alto!», os que murmuram: «Para traz», os que vêem por cima da terra uma abóbada de Ceos, os que para alem da terra nada vêem, os que acreditam nos destinos da humanidade, os que não acreditam senão nos seus proprios, os que usam e os que abusam da sua alma e da alheia, os que usurpam, os que assumem, os que acceitam, os que desdenham, os que menoscabam, os que insultam, os que sullapam, os que perseguem o poder, todos concorrem, ou todos concorremos, com penedos, silharia, areia, cal, barro, cascalho, pórphiro, suor, lagrimas, e sangue, para o edificio providencial, para o futuro palacio no segundo paraizo do genero humano.

Com muita ou pouca esperança, obedeçâmos á nossa natureza, e cumprâmos o nosso fadario, nós outros, os que (mercê de Deus) anhelamos pela dita da Patria, que ninguem dirá que não esteja muito enferma, e muito triste.

Eu já agora, meus amigos, n’isto hei-de perseverar, requerendo para Ella luz e mais luz, campo e mais campo, trabalho e mais trabalho, até que os obscurantes, obedecendo tambem á sua natureza, e cumprido tambem o seu fadario, me hajam acabado, não com o bom proposito, que o não podem, mas com a vida.


¡Se vós bem soubesseis, meus irmãos do casal, o que elles teem urdido, e urdem, e tramam contra o pobre de mim, que nunca lhes fiz mal, nem a ninguem, só por terem visto que, em vez de acudir ao chamamento dos seus muezzins, e ir ás suas mesquitas psalmear o seu alcorão, só curo da instrucção elementar do Povo!...

¡Se bem soubesseis a feridade e impudor com que me atassalham o nome, e me cospem na sombra, só porque me desarrisquei de bandos politicos! ¡a risivel ociosidade, com que discutem e decretam em seus conventiculos, ora que me envenenem, ora que me prendam e multem, ora que me deshonrem, ora que me dessoceguem e me defraudem do tempo, só porque esse tempo eu o consumo, com parte do meu escaço haver, em fazer que se ensinem as primeiras lettras aos vossos filhos, e aos dos artifices desvalidos!

¡Se adivinhasseis os embustes indignos, as suggestões aleivosas, as ameaças e espancamentos brutaes, com que d’estas fontes de doutrina teem procurado arredal-os!

Não sei qual admirarieis mais: se a sua maldade e demencia, se o meu soffrimento e perseverança.