Mas, por descargo de consciencia, sempre vos digo, que os admireis antes a elles do que a mim, que já acabei de ser para elles tão generoso como pareço. Não lhes digo o que a lima do ferreiro disse á vibora que a esmordaçava... mas condemno-os a viver.

D’aqui avante, zunam e piquem quanto quizerem; de tudo faço registo para um archivo, que a elles lhes está defezo pela Natureza: para a Posteridade.

Fundo em bronze todos estes seus feitos magnanimos. Esculpo em ferro os seus retratos, semelhantissimos de asquerosidade, sublimes de hediondez. Por baixo gravo-lhes os nomes; gravo-os fundo e com todas as lettras; e todos estes aleijões de museu, não tanto por vingança, como para escarmento a outros temerarios, hão-de ser em um livro carreados para o porvir. ¿E que duvida? ¿Não é assim que o mundo conhece, ainda hoje, dementes e facinorosos de dois mil annos?

Já os tinha avisado. Quizeram-n-o, tel-o-hão. O ferro e o bronze da minha fundição não se acabaram, nem se acabam tão depressa.


Perdoae-me, boa gente. Descabidas coisas são estas para a amorosissima serenidade do vosso casal; e bem alheias são ellas tambem da minha indole, só propendente para bem querer e muita paz.

Venhâmos pois ao que mais nos importa: ao nosso grande ponto das escolas, que são as eiras em que primeiro se prepara o pão da alma.


A alma tambem, como o corpo, morre á mingua de alimento. Se aquella ruim gente, que detesta e persegue as nossas humanas diligencias, tivesse aprendido, e soubesse, já pode ser que não empregasse tão desalmada e torpemente a sua actividade.

Para que os filhos e netos não venham a ter ás Lettras egual odio, antes por ellas cada vez se pulam e amaciem mais, e se façam mais poderosos, mais ricos, e melhores, é que devemos forcejar para que se multipliquem, por campos e cidades, estes sacerdotes e curas de almas infantis, a que dão o humilde mas bello nome de Mestres de primeiras lettras.