Das Côrtes e do Governo, tarde nos virá o remedio, que dizem e repetem não lhes sobrar dinheiro para escolas; e é verdade; só o Exercito devora quasi metade do Erario. Vejamos logo, se, em tamanha mingua e desamparo, nos não podemos ir, como quer que seja, remindo por nós mesmos; bem, completa, e devidamente, não o cuido; mas até certo ponto, emquanto a Providencia não acode, parece-me que sim. Ora vêde:


Em toda a parte ha sempre, por entre o cardume dos rusticos e ignorantes, alguns individuos mais mimosos da fortuna, que aprenderam alguma coisa, que vivem com certa abastança, e a quem sobram horas para aborrimento ou desmanchos, se as não poserem a juro para a consciencia e para o Ceo. Ha o Parocho; ha o Cura; ha o Doutor, ou Licenciado; ha o proprietario, que traz arrendados os bens; ha o negociante, que chegou á sua conta, e para descançar fechou as portas á fortuna; ha o laborioso, que andou moirejando barras de oiro por terras extranhas, e quiz vir morrer descançado no quarto em que nasceu, e comer as couves creadas deante da sua porta, como em menino; ha o militar aposentado, que não sabe o que faça do anno; ha o professor emérito, a quem ainda ás vezes o ensino lembra com saudade; ha o estudante que veio a ferias, e que está n’aquella edade feliz, em que a alma gravíta com tanta força para a publica estima, como o coração para o amor; ha o velho, que não pode sahir, mas conserva os olhos e ouvidos, a memoria e a voz, e folgaria de ter com que encurtar os dias, tão solitarios e tão longos; ha o Magistrado homem de bem, e o Escrivão honesto, a quem seus officios deixam remanescentes de muito boas e aproveitaveis tardes; ha o Ecclesiastico sem beneficio mas não sem entranhas; ha o ancião Egresso, que perdoou tudo, e, se o não esqueceu é porque deseja bemfazer ao mundo, que o desterrou do ermo para o povoado, continuando e augmentando no mesmo povoado as obras de sua caridade.

¿Ora, por que não haveis vós, os mais velhos e respeitaveis de cada aldeia ou logar em que não ha escola, por que não haveis de ir ter com algum d’estes homens, acompanhados de vossas mulheres e de vossos filhinhos, e supplicar-lhe, pelo amor do Pae Commum, e da sua alma, e de vós, e da Patria, e da Humanidade, abra um ensino de ler, escrever, e contar, nos dias de semana para os pequeninos que ainda não trabalham na terra, aos domingos e aos serões para os grandes já callejados, e para vós mesmos?

Se o primeiro se vos excusasse, o segundo vos deferiria. Se o segundo vos repellisse, o terceiro, com mais lagrimas nos olhos do que vós mesmos, vos despacharia e agradeceria a supplica.

Depois, era ir de porta em porta, pedindo ás senhoras habilitadas para tão nobre encargo, egual mercê para vossas filhas e esposas, porque (segundo já ponderámos) na instrucção das mulheres se contém a dos homens para o futuro; e logo que as mães souberem ler, não haja medo de que os filhos o ignorem. Para uma Religiosa no seu convento, ¡que gentil e religiosissima occupação, obtida do Prelado a licença para ali se abrirem as portas a uma escola feminil!


¡Oh! ¡quem me dera poder estar meia hora, ou um quarto de hora (bastava), ao pé de cada uma d’aquellas senhoras, e de cada um d’aquelles homens, antes que vós entrasseis com o vosso requerimento!

Não lhes diria o que a Religião lhes insinuára; não lhes invocaria o patriotismo; não lhes encarecêra mesmo a grandeza de tão facil beneficio, nem a vossa gratidão, nem os respeitos que semeavam na geração nova, nem o thesoiro de consolações que atulhavam para o ultimo praso da vida, em que tudo que se ajuntou se deixa, e só o que se deu se leva para a grande viagem.

Pedir-lhes-hia só, que experimentassem a delicia do ensinar, sobre tudo de um ensinar desinteressado, como de pae e mãe a filhos e filhas; ¡o como, n’aquelle trato intimo com a puericia, permitte Deus ás nossas almas rejuvenescer e florir!