Queriam-se pois para as nossas leituras ou lições populares, além das obras já indicadas outras, e muitas, de Religião, de Moral, de Hygiene, de Medicina caseira, de Agricultura, de Veterinaria, de Physica, de Chymica, de Zoologia, de Botanica, de Mineralogia, de Economia, de Direito publico, de Direito civil, de Direito criminal, de Historia, etc.; opusculos curtos, em linguagem pura (estragal-a, como por ahi a estragam, para populares e meninos é um crime), e finalmente baratos e quasi dados.

¿Parece-vos isto difficultosissimo? pois não é.

Homens de saber e engenho para escreverem taes opusculos, não faltam; o que só falta, é a Lei nova, e novos costumes, que lhes afiancem o não perderem, nem o tempo que houverem gasto no estudar e escrever, nem as despezas que houverem feito no imprimir. O costume virá do tempo, da rasão, e da mesma Lei; a Lei muito facilmente poderá vir do vosso e nosso Parlamento. Adopte e sanccione elle o alvitre que ha seis annos publicavamos[5]: ponha tributo de sello ao papel em que se imprimem deploraveis e estragadoras traducções de excusadas e abominaveis novellas francezas, e com o tributo d’esse imposto, mais racional que o do sello nos papeis forenses, faça premios aos escritos illustradores e sociaes. Será queimar ou enterrar as hervas más para adubio de plantas uteis, que é fazer n’um só lanço dois beneficios.

[5] Revista Universal Lisbonense—Tomo II, n.º 37—1.º de Junho de 1843—artigo 1741.

D’esta sorte os autores, seguros da perda, perfarão o que hoje nem ousariam commetter. Pagas de antemão as suas despezas, poderão dar os seus livrinhos por vil preço. A barateza, junta á utilidade, os fará copiosamente vender e reimprimir, com proveito sempre crescente d’elles, com proveito sempre crescente de todo o Publico.

Em quanto, porém, essa edade aurea das Lettras, Artes, e Sciencias, nos não chega, os nossos bons leitores publicos que se remedeiem, com o que acharem de melhor para o intento; e mesmo, se a experiencia lhes mostrar ser conveniente, que misturem com aquellas obras de que fizemos rol, e semelhantes, outras de menos substancia e maior agrado, como os dramas e os romances moraes. Este arbitrio para os primeiros tempos, e para fazer pegar o costume, seria por ventura o mais plausivel.


¡Que serões! ¡que serões vos não esperam já este inverno! ¡Que deliciosas tardes de domingos e dias santos! ¡quantas coisas prestadias, e para vós novissimas, não tereis já na memoria, no espirito, e no coração, em volvendo a primavera! ¡quantos gastos de dinheiro, de saude, e de paz interior, não haverão forrado muitos d’entre vós, que, a não ser o chamariz da leitura, teriam ido da venda para o arruido, ou para o roubo, de lá para o hospital, para a cadeia, ou para o cemiterio!

Pedi, supplicae ao vosso Parocho, ao vosso Administrador do Concelho, a quem mais vosso amigo, e a quem mais homem vos parecer, que ajudem e promovam taes institutos em favor da Religião e da Caridade, em favor da Policia e da Ordem publica, em favor das Familias, e da Patria.

¡Um leitor em cada aldeia, se é possivel! ¡Um leitor, e mais de um em cada villa! ¡Muitos leitores, muitissimos, innumeraveis, em cada cidade!