¿Será ainda este mais um grito em deserto sem eccos?

Outubro de 1849.

XVI
Decimo serão do casal

Abolição do Exercito

SUMMARIO

Outros procuram a felicidade, onde a não ha; nós pedimol-a á Agricultura.—O que um Ministerio da Agricultura fará para beneficiar os lavradores.—O Exercito é mal para os individuos, para as familias, para a Patria, para a Humanidade.—O Exercito ou é para conquista, ou para defensa, ou para tranquilidade.—Portugal não pode conquistar; não tem de quem se defenda; tendo, haveria outros recursos; e a paz interior mais se lhe tem com as tropas perturbado, que mantido.—Uma sentença de Felice contra havermos Exercito.—Quanto o Exercito nos custa, no orçamento, e fora d’elle.—Lucros cessantes que motiva.—Retrato do camponez antes de soldado.—O mesmo em soldado.—O mesmo depois da baixa.—Celibato militar.—Pede-se a suppressão do Exercito.—Poucas palavras sobre o como se pode a milicia extinguir sem inconveniencia nem perigo algum.—Nova organisação da força publica.—Guarda nacional.—Lei agraria, com vantagem para o publico e para muitos particulares, e sem lesão para nenhum d’elles.—Acenam-se alguns pontos para uma Lei de organisação de propriedade territorial.—Adoptando-se estes conselhos, as instituições liberaes e o Throno se firmariam.

Continuamos na nossa teima de procurar felicidade.

Se é loucura, é loucura nobre, e todos os espiritos mais bem nascidos de cada seculo a teem padecido. Uns a fizeram consistir na renunciação de todos os bens terrestres pelo amor do Ceo. Outros, na impassibilidade estoica. Outros, no elixir de longa vida. Outros, no Quietismo. Outros, na maxima diffusão das luzes. Os economistas, na maxima producção material, com absoluta abstracção de moralidade. Os politicos, na composição de formas governativas. Nós, em relação ao nosso Portugal, fazemos consistir a felicidade na Agricultura, pois debaixo d’esta palavra comprehendemos, como effeitos na causa, a abundancia, os bons costumes, a paz, a satisfação, e a estabilidade.

Dos economistas não esperamos nada; o materialismo foi sempre estéril. Dos financeiros ainda menos; todos os algarismos do mundo não são capazes de crear um átomo; por elles ainda não vieram senão tributos ao Povo, e meia duzia de alampadas maravilhosas para os Aladinos do calculo. E, finalmente, dos politicos tambem não, porque, trabalhando ha tantos annos na procura da promettida pedra philosophal, tendo mettido para os seus cadínhos tantas preciosidades, e accendido tanto fogo e tantos fogos, queimado tanto (até do futuro), ainda não fizeram sahir do seu estrondoso laboratorio senão fumo.