O soldado é ora um escravo, ora uma victima; a familia do soldado uma orphan, esbulhada de parte do seu haver mais sagrado. A Patria não tem carga mais onerosa, nem a Humanidade coisa que tanto a vexe e lhe repugne. Todas as considerações sociaes, economicas, moraes, religiosas, scientificas, litterarias, e artisticas, todas sem excepção veem jurar contestes no processo contra o Exercito.
¿Para que tem logo havido em todos os tempos exercitos? ¿e para que os ha ainda hoje em tantas partes?
Umas vezes, para a conquista; outras, para defensa contra invasores; outras, para tranquilidade interna.
No primeiro caso, é o Exercito uma arma em mão de salteador. A Historia chama-lhe um brasão. Portugal, como todas as nações heroicas, o teve, e com elle se engrandeceu.
No segundo caso, é um escudo, que está afrontando e esmagando ao proprio corpo que defende. Do mal, o mal: das armadas invasoras procederam fatalmente as armadas defensivas.
No terceiro caso, é um remedio violento e dispendiosissimo, para doença que em parte se devia prevenir pela hygiene, ou, chegando-se a declarar, acudir-se com menos ruido e mais efficacia.
¿Podemos nós ser conquistadores?
Não. Logo, se temos Exercito, não é para conquista.
¿Temos que nos defender de extranhos?
Não. Rasões de mais alta e geral politica são as que per si nos defendem, e hão-de defender; e, quando ellas cessassem, ou fossem vencidas, não haviam de ser estas nossas fileiras que nos salvassem, mas sim o Povo todo: os fortes, e os fracos, os decrépitos, as creanças, as mulheres. As nossas armas seriam o ferro, os troncos, o fogo, as pedras; o nosso soldo, a vista das casas que defendemos; as nossas bandeiras, os campanarios das nossas freguesias; os Evangelhos do nosso assentar praça, as lembranças das nossas victorias sobre Romanos, sobre Arabes, sobre Castelhanos, sobre Francezes. Povo que se defende na terra em que nasceu, é leão e leôa no seu bosque diante do covil dos filhos. O Ceo, com a santidade da nossa causa nos protegeria; e, se nos fosse indispensavel auxilio humano, elle no-lo depararia no braço de alguma Nação, que defendesse nos nossos os seus interesses. Logo, não é tambem como escudo, que mantemos um Exercito.