¿Será portanto para obviar a tumultos? para cohibir sedições? ¿para conservar boa ordem e regimento no Estado?

A esta pergunta não precisamos de responder; bem respondida que ella está n’uma pagina de cincoenta leguas de largo e cem de alto, que ha cincoenta annos temos cem vezes escripto, respançado, e tornado a escrever com sangue de irmãos. Logo, se com um Exercito nos consumimos, não é para bem da paz domestica.


«Os pequenos Principes—diz Felice—querendo arremedar os grandes potentados, teem exercitos, que para brinquedo são de mais, e para deveras de pouco servem.»

A segunda parte d’esta sentença bem provada e contraprovada nos está por factos; e a primeira é verdade não menos manifesta.

Perguntae aos orçamentos (e ainda esses não sabem, ou não dizem tudo): ¿emquanto nos importa o Exercito? ¿os soldos e comedorias da soldadesca e dos estados maiores? ¿os uniformes, os armamentos, o calçado, a remonta e sustento da cavallaria, as fabricas de polvora e balas, os arsenaes, os quarteis, as obras de fortificação, as marchas e conducções de bagagens, os transportes por mar, os roubos e extravios do material, as secretarias, os commissariados, as inspecções, os tribunaes militares, as boticas, os medicos, os cirurgiões, os enfermeiros, os moços, os invalidos, as musicas, etc.?

Os orçamentos do Ministerio da Guerra d’estes ultimos nove annos dão, termo medio, uma despeza annual de 2:758:580$410 reis.

Se porém considerarmos que a Marinha é, por sua natureza, parte e complemento da Guerra, e nos tem custado, tambem termo medio no mesmo periodo 944:475$851 reis, teremos annualmente uma despeza de reis 3:703:056$261.

Pelo exame dos respectivos orçamentos, todas as restantes despezas do Estado, termo medio, não teem subido no mesmo periodo de reis 6:560:419$590.

Coisa espantosa! Mais de um terço dos haveres publicos devorado pela Guerra, que ou é um nome vão, ou, quando tem a sua funesta realidade, é por esse mesmo desperdicio que nasce e se alimenta!