¡Lá vai o coração de uma pobre familia arrancado! Lá entra pela primeira vez, e prezo como um criminoso, na cidade, a quem elle queria servir de longe com a enxada na mão, um mocinho, innocente, cheirando á terra, ao feno, e á flor do matto; simples e viçoso como ella, temente a Deus, amante de seus paes, de suas irmans, de seus irmãos, bemquisto dos visinhos, laborioso como abelha, sentindo e expirando de si a poesia da Natureza, como o passarito do silvado em flor por uma antemanhan de Maio.
Approvado pelos medicos n’um exame, onde o fizeram corar pela primeira vez, passa de repente da liberdade para a escravidão; da luz e fragrancias do seu campo, para a escuridade fétida de um quartel; d’entre rostos benévolos, para entre semblantes carrancudos; do rebanho que pastorava, para a escola e chibata do instructor, para as conversações grosseiras, mortiças e fumosas da tarimba. Com violenta mão lhe limam á pressa todo o cunho da sua individualidade: rentearam-lhe o cabello, como a todos os seus camaradas; vestiram-n-o e calçaram-n-o como todos elles; constrangeram-n-o a tomar a mesma figura e movimentos, a dar os mesmos passos contados, a comer á mesma hora, e do mesmo pão, a dormir e a acordar á voz metallica da mesma trombeta. ¡Individualidade!? ¿elle? até o nome lhe tiraram; é um numero; e esse numero nem mesmo designa um ente sobre si. As suas armas, o seu fardamento, e elle, são tres elementos inseparaveis, cuja somma é o soldado. Se a bayoneta soubesse ouvir e obedecer, e a espingarda atirar, não as teriam complicado com aquelle appenso vivo, que é para ellas o que é a carreta para o canhão, ou os cavallos para a carreta.[6]
[6] N’um volume de romances moraes, que o meu amigo o snr. Luiz Filippe Leite está para dar á estampa, com o titulo de Supposições que podem ser realidades, ha uma pintura das miserias da vida militar. O autor copiou o seu soldado do natural, o seu desenho é bello, as suas côres verdadeiras. É um soldado esse, que serve de efficaz auxiliar á nossa doutrina.
Castilho.
O mais rigoroso de todos os codigos das Nações, e o mais altamente offensivo da dignidade humana, é aquelle que o soldado, com a mão sobre os Evangelhos, jura cumprir. E o peor é que essa antinomia a todas as ideias de Liberdade, é uma fatal condição, e inseparavel, da existencia de exercitos.
—«¡Ao menos, é uma vida gloriosa a das armas!»—dizem.
¿Mas não será esse dizer uma arteira seducção armada ao espirito, assim como a purpura das bandas, o accezo dos pennachos, as côres vivas das golas e canhões, o oiro das dragonas e das chapas, o lustroso das correias e dos ferros, são outra calculada seducção para os olhos, e outra as estrondosas musicas para os ouvidos?
Nos sacrificios dos pagãos enfloravam-se as victimas. ¿Por que razão Marte não enfeitaria tambem as suas?
«¿Gloriosa vida a do soldado?!...» A consciencia d’elle que o diga.