O seu entendimento entorpeceu-se no meio da monotonia da sua agitada ociosidade. Tudo n’elle é vulgar. Os seus actos, até quando arrosta com as balas ou vôa á brécha, são sem merito, porque não são livres. A reflexão lhe é defeza. O sopro de um clarim o despára para a morte, ou para a victoria, como a descarga do obuz arremeça a bomba, que vai despedaçar, despedaçando-se. Mandado, combate hoje pelo vermelho contra o azul; amanhan, mandado, combaterá pelo azul contra o vermelho. Mandado, expõe-se n’uma sentinella perdida, pela segurança dos seus camaradas. Mandado, irá, em se recolhendo d’ali, espingardear o seu camarada predilecto, sem uma pergunta, sem uma lagrima. Mandado, poria fogo, sem hesitar, á egreja onde o baptisaram, á aldeia em que nasceu, á choupana d’onde sua mãe entrevada não pode fugir.
Tudo isto lhe murmurará tristemente a consciencia, quando á sua profissão ouvir chamar gloriosa. ¡Que fiel, que horrorosamente fiel, não é o retrato, que do soldado, olhado a esta luz, pintou a negro Alfredo de Vigny!
Ao viver monastico teem reprehendido philosophos os seus tres votos, como anti-naturaes.
¡¿E o soldado?! ¿O soldado é livre para casamento? ¿O soldado não geme em forçada pobreza? ¿O soldado, sobretudo, não é o prototypo da obediencia servilissima?
No monge, ao menos, a pobreza descalça, a continencia sobrecarregada de cilicios, a abnegação do querer, tinham por compensação a esperança de thesoiros, de delicias, e de um throno para a eternidade.
¿E o soldado? ¿Que lhe promettem, ou que espera, por tantas renunciações?
¡Oh! a sua humildade, se fosse livre, seria inquestionavelmente de todas as heroicidades humanas a mais estupenda. Mas não é livre. Mais, do que no Religioso opera a esperança do premio, opéra n’elle o seu unico movel: o medo do castigo. O cenobita padece e canta; o soldado padece, e nem ousa suspirar. Aquelle canta porque na phantasia lhe riem Céos; a este negrejam-lhe na ideia o calaboiço, as varas, a grilheta, a farda rasgada, o fusilamento.
Depois de annos de uma tal vida de gloria, ¿como volverá ao seu torrão o mancebinho innocente, que d’ali arrancaram, por entre tantas lagrimas dadas e recebidas, se por ventura lá volver? Nem a namorada do seu coração, se a teve, o reconhecerá.