O aborrimento da miseria n’uma condição obscura, e na familiaridade com entes sem educação nem principios, lhe fez contrahir muitos vicios ignobeis, que o levaram mais de uma vez, ora ás prisões, ora aos hospitaes[7]. As suas mãos perderam o geito e gosto dos trabalhos naturaes e primitivos. Rescendia ás flores do matto; hoje cheira á polvora, tem o perfume das batalhas, como as aves carniceiras o fortum cadaveroso. Tinha Fé, desbarataram-lh’a; indole affectuosa, affizeram-n’o, por dever, á theoria e á pratica do homicidio. Nos contos do serão, tudo o fazia estremecer; agora, é elle que infunde espanto aos ouvintes, pelo impassivel com que a sua voz rouca descreve as carniçarias que viu, e que ajudou, o lanço da cidade que voou com a explosão da mina, a população inerme que passaram á espada.

[7] Verdade reconhecida pelo snr. Capitão João Maria Fradesso da Silveira no seu honrado artigo sobre a lei do recrutamento, na Revista Militar de Fevereiro de 1849.

Castilho.

¿Por que assim é desprezador da vida? Porque d’ella só conhece as durezas e amarguras. O seu valor, se o tem, é uma qualidade negativa: despréza a morte, porque não sente a alma.

Breve: o Exercito custa ao Thesoiro, que devora; ás provincias, que fatiga; ás casas, que desfalca de filhos; ás terras, que priva de braços; ás artes, que despója de obreiros; aos individuos, que esbulha do seu quinhão de liberdade, a quem quebranta mil fóros e immunidades essenciaes do homem, a quem, finalmente, de homens converte em machinas de destruição.

E mais, e muito mais, custa ainda o Exercito, se avaliarmos as graves consequencias, positivas e negativas, directas e reflexas, do seu celibato; ponto esse, em que já d’outra vez tocámos, e que por si mesmo se está commentando.


Ora, se tanto custa o Exercito, e se tão inutil é, como já vimos, ¿por que não insistiremos para os Legisladores, e para os que os hão-de eleger, no alvitre (que tambem já outra vez suscitáramos) de se extinguir este grande, este immenso, este inutil, este estéril e esterilisador, convento militar?

¿Não se dá baixa ao soldado quando já não póde com a milicia? ¿Não se lh’a dá? até em tempo de guerra? ¡quanto mais em paz! Pois então, ¿por que se não ha-de a baixa conceder já já a este triste velho de Portugal? As suas armas visivelmente o assoberbam e debilitam de anno para anno. ¿Aguardaremos que o acabem de matar, para então lh’as despirmos? Elle já não tem que ir fóra a conquistar. De fóra não hão-de vir accommettel-o. ¿Logo, de que lhe servem, se não fôr para se ferir? Arrancae-lh’as; ou antes: deixae-lh’as depôr dos braços pizados, sangrentos, e cadavericos, que é tudo quanto elle mesmo vos supplíca. Tem o torrãosinho que mercou, e muito caro; permitti-lhe remoçar-se n’elle, cultivando-o com desafogo.

Quando Herminia, no formoso poema da Jerusalem resgatada envérga armas sem ser guerreira, ¡a que perigos e terrores a não expõe essa loucura! Mas quando emfim, vai armada dar assim áquelle campestre retiro, onde o pastor ancião está rodeado da familia, embebido em seus rusticos exercicios, que os meninos fogem, assustados de a ver, e só voltam quando ella, desquitando-se do elmo, se lhes descobre gentil, pacifica e amorosa, donosissima allegoria! Escutae o que a boa Herminia diz, ou o que diz, por sua bocca, a alma do grande Poeta: