Desde a flor da mocidade o amo eu, que desde então nos conhecemos. N’aquellas famosas festas da Primavera, celebradas nas margens ridentissimas do Mondego, e de que já póde ser ouvirieis falar ou ler alguma coisa, foi elle um dos que mais por engenho se extremaram.

D’ahi para cá (e não são tão poucos annos), sem renegar o culto das Musas, que tão dadivosas o prendaram, entrou, comtudo, a combinar com aquelle affecto outro mais alto; com a poesia espontanea da imaginação, que é só rosas e fragrancias, a poesia cultivada e frutifera da Natureza. As sciencias d’ella, foi-as enxertando no talento, foi-as nutrindo e robustecendo com a seiba, assim melhor aproveitada, do seu engenho. Imaginae ¡o que não estarão hoje produzindo!

Então, era a primavera, a florescencia, o poeta. Hoje, é o sabio, a meditação, o outono, a abundancia. Então, o rouxinol que enfeitiçava as ociosas noites de luar. Hoje, a aguia que se remonta ás alturas, d’onde abrange largo mundo, e que fita os olhos escrutadores no proprio sol. Coração e indole não lhe mudaram; mas os amores que tinha, ideaes e volateis, concentrou-os no amor grande, no que é bemvindo em todas as edades, e a todas as ennobrece: no amor dos homens. Como Virgilio, passou das cadeias de rosas de Amaryllis, ao magisterio das Georgicas, á grave doutrinação dos camponezes.

Lavrador elle mesmo, e imbuido copiosamente nas theorias por sua experiencia verificadas, comprehendendo (até onde é dado) os mysterios da Natureza, affeito a explical-os, e sabendo realçal-os ainda com a lucidez e côres do estylo, commetteu com a melhor estreia, e com as fadas mais propicias conseguiu, crear para vós o que de toda a parte, ha muito tempo, se pedia em vão: o codigo succinto, mas completo, dos vossos trabalhos.


Em dois volumes, e não grandes, é a sua obra repartida. O 1.º anda já no Publico, procurado e festejado; o 2.º não tardará, podendo-se-lhe desde já prophetisar egual fortuna.

Presente bem rico vos será já per si o que vos trago. N’elle aprendereis, como introducção ao que vos cabe fazer, para que a fazenda, como dizia Virgilio, satisfaça ás vossas cubiças, parte do muito, e do infinito, que a Divina Sabedoria fez para vós e para todos, ao crear a terra, as aguas, os ares, e as plantas.

N’este sentido, o livrinho, sem o dizer, é tambem dos mais religiosos. Descobrir os segredos da Creação é adorar o Creador. Newton, que mais os sondou, nunca de Deus falava sem inclinar aquella grande cabeça, que abrangia mundos.

Quando houverdes lido, no vosso Guia e Manual, os maravilhosos segredos do nascimento e crescimento, da florescencia, frutificação e reproducção das plantas, da sua alimentação, da sua vida, do seu respirar, do seu dormir, dos seus amores, das suas relações de beneficios mutuos com o ar, com a terra, com os animaes, e comnosco; fico-vos eu que a minima hervinha vos inspirará mais devoção, e vos dará mudamente mais conselhos, que a mais devota Imagem da vossa aldeia. O que no campo vos parecia solidão e ermo, deixará de o ser aos vossos olhos, porque direis:

«Tudo isto, que vegeta em derredor de mim, me está amando, e amando a seu modo ao nosso Deus; tudo isto é vivo, tudo isto é sabedoria e bondade em acção.»