E depois, com este conhecimento especulativo, que vos ala para as alturas, ¡quantas ideias para applicação e pratica! Cada verdade, cada phenomeno, que se descobre dos entes a dentro, é um raio de luz que nos encaminha no mais acertado modo de os servirmos e os aproveitarmos. A herdade d’aquelle que aprendeu o capitulo da grande Theologia Universal chamado Botanica, entre os predios dos ignorantes se distinguirá, como a porção de terreno em que Franklin mandou á Natureza escrever com grandes lettras viçosas um invento prestadio. Isto foi adubado com gesso—bradavam aos olhos, no meio de um prado mal fértil, pomposas lettras de verdura. Isto pertence a quem entende o viver das plantas—dirá a duplicada fertilidade da vossa lavoira.


Para que não suspeiteis que é a amisade quem me fascina, quando assim vos exalto o valor e prestimo do livro; ou para que, por ser de extranho á vossa bella arte, me não desdenheis a recommendação, haveis de saber que o mesmo que vos eu digo, foi já sentença de tribunal mui competente, qual é a vossa Sociedade promotora.

Tanto a obra lhe cahiu em graça por sua singelez e verdade, por sua sciencia e clareza, pelo mui serviçal que se vem accommodando a esta e áquella necessidade do lavrador, e pela segura sonda com que o autor vai tenteando as novidades antes de as adoptar (o que nem sempre se acha nos agrónomos que só teem por geira a folha de papel, por charrua a penna, por bois os dedos, e por experiencia as suas phantasias), emfim por sua sciencia e consciencia, tanto namorou o livrinho a estes sinceros juizes, que, a par com os louvores e agradecimentos, que já não seriam pequena corôa, lhe decretaram unanimes uma medalha de oiro. Fizeram o que o Governo havia de fazer, se já existira n’elle o que em nossos votos existe ha muito: um paternal Ministro da Agricultura.

Em quanto o não ha, nem Côrtes que legislem premios condignos a taes serviços, necessario é que a virtude dos particulares vá pagando, como pode, dividas sacratissimas, que não são só do Estado, se não tambem da Humanidade. ¡A Deus praza que as outras Sociedades agronomicas do nosso Portugal, edificadas com o santo exemplo o imitem, e o subam ainda por sua parte a maior ponto!

Os talentos dos que podem escrever para utilidade dos seus semelhantes, são como as flores femininas: conteem no seu ovario, lá bem no fundo do calix, germes optimos; mas o pólen, que os fecunda para frutos, só lhes vem na aura do favor publico. Esse pólen fragrante, que os activa deliciando-os, e encantando a quantos no transito o aspiram, é o louvor e o premio.

Flores d’alma hermaphroditas, que a si mesmas se bastem para frutificarem, tambem as ha, tambem; mas são muito raras.

Sem premio, nem esperança d’elle, nasceu em verdade, e amadureceu, e está já colhido, o Manual do lavrador; mas agora, depois do exemplo, ¿quem póde calcular o que no engenho e saber de outros procreará a louvavel ambição?

¿Lembrais-vos d’aquellas condecorações em que vos eu falava aqui ha tempos, que se deviam instituir com titulo de Ordem do Arado, e de que tanto escarneceram os parvos, que, a propôr-se a votos uma Ordem da maledicencia, calumnia, e mexericos, talvez a approvariam? ¿Lembrais-vos, meus amigos?

Pois, se tivesse já havido um Parlamento que a decretasse, e tivessemos um Ministerio dos Negocios da Agricultura.... um Commendador da Ordem do Arado para venerações teriamos nós já; e vós m’o direis quando houverdes devorado o livro.