Antes de nos apartarmos, falemos de outra coisa, que tambem vos toca.

Sabereis, que, no dia folgasão do nosso patricio Santo Antonio, teve a Sociedade promotora da Agricultura Michaelense um banquete campestre, muito lauto, muito alegre, mas (o que mais vale, que tudo isso, quanto a mim) muito excitativo para mutuas harmonias de vontades, e muito desafiador de forças para os trabalhos que mais importam. Com vinho patrio se bebeu á vossa saude, á prosperidade da lavoira, e á perseverança e bons fados da Sociedade, que tanto lhe quer a ella, e mais a vós.


Em nossos precedentes serões, aqui no casal, vos ponderava eu, e vos provava com exemplos, como os poetas foram sempre os mais certos amigos e devotos dos campos e vida rustica. No livro que vos hoje trouxe lá vereis mais uma prova; e agora concluirei com uma recentissima, de minha lavra; é o Hymno dos lavradores, que eu apresentei como postre entre os vinhos e fruta da vossa terra, n’aquelle patriotico jantar de nossos amigos e irmãos.

Tambem eu, ensinado pelos annos, passei das festas da primavera para as do trabalho. Outros tempos, outros gostos; os mais seguros e abençoados sempre são esses.

Ouvi pois o vosso Hymno; se vos aprouvér decorae-o, e no meio de vossos trabalhos entoae-o muitas vezes. Poesia e Musica são uns bons adubos, que se haviam de empregar muito mais a miudo, para estimulo de entendimentos perguiçosos e vontades indolentes. De Poesia e Musica muito se ajuda a civilisação onde ha philosophia, como em terras de Allemanha. Os Antigos por instincto o adivinharam, quando metteram entre as lições de suas fabulas a de Orpheu e de Amphião domando rudezas, amançando feras, e erigindo cidades de cem portas e immenso trato, ao som de suas lyras.

O que a minha entoou para inspirar o santo amor dos campos, ainda que não seja de nenhum Amphião nem Orpheu, eil-o aqui. Com mãos limpas vol-o entrego; recebei-o com boa sombra.

HYMNO DOS LAVRADORES

Voz