«Ainda á farta me vingára dos tantos annos, que em tarefas ephemeras e sem gloria, posto que não sem consciencia e diligencia, se me desbarataram na galé da Imprensa periodica; ou (com mais propriedade) nas palhas d’essa doidinha, que a si mesma se venéra por soberana do Universo, soberana com diadema de papel, e sceptro de lapis. Só não rira d’ella, quando me lembrasse que me engoliu, com os annos que me tomou, outros tantos da minha existencia para o diante, pois em cada tomo de periodico, sincera e honradamente redigido, se podia escrever este epitaphio:—Aqui jazem um anno de fadiga e dois de vida de... Orae por elle.
«Vendem-se ainda primogenituras por menos que prato de lentilhas.
«Vingára-me (¡oh se me vingára!) de tão bons dias mallogrados; e ainda por ventura alguns livrinhos, menos maus que todos os meus precedentes, appareceriam de novo (mas sem mim) no povoado. Como Ovidio aviava os seus do desterro, aviaria eu os meus do meu eden:
Parve, nec invideo, sine me, liber, ibis in Urbem.
—«¿A que vem tomar-nos tempo com a fabula pueril dos teus gostos e desejos?—dirá, e ha-de dizer, algum d’estes que sabemos, e que nunca faltam, escoimadores ex officio do alheio.
«Senhor meu—lhe respondo eu já—pois é por isso mesmo de não passarem de fabulas os meus gostos e desejos, que se me ha-de relevar o dar-lhes eu largas no papel. Se eu vira agora cahir-me do ceo o meu tugurio e o meu quintal coroados de ermo, como o Evangelista, nas praias nevoentas de Pathmos, viu baixar do Empyrio a sua Jerusalem abraçada de muros de oiro, o tempo, que n’estas palavras gasto, aproveitára-o melhor em correr para o meu refugio, beijal-o, replantal-o, aformosental-o; e em lá vindo o florido Maio, ride-vos de pagão que brindasse os seus Lares com mais fé ou egual amor.
«¡A Liberdade!... ¿Onde ha hi liberdade que nem por longe se pareça com a de um viver remançado, em casa sem numero nem espias, ao som da Natureza, á lei da propria inclinação, sem ouvir horas, que nos chamem, sem encontrar conglosadores, que nos aboquem no ar acções e palavras, para nol-as tingirem de branco em preto, nem cahir nas garras de ociosos, que vos emprasarão para toda uma tarde de Junho, ou toda uma noite de Dezembro; isento da praga de reformadores velhacos, que são a peor salada que o diabo temperou e mecheu em horas de aborrimento; seguro, emfim, de ser pizado nas ruas por soberbias de quem vos não vale, tremolando-lhe na botoeira do vestido refulgente epigramma de esmalte contra meritos e virtudes, e de noite interrompido na meditação, ou cortado no melhor do somno, pelo retroar de carroagens, que em fluxo e refluxo continuo levam e trazem, sempre a correr para nada, pygmeus histriões da farça séria d’este mundo.
«Se algures ficou sobre a terra a Liberdade, que irmana, segura, ennobrece, e concilía os hómens, na montanha encontrareis mais depressa coisa a ella parecida, do que não por estas almotaçadas metrópoles, onde se blasona que ella tem o seu templo, e n’elle as suas festas. Sempre são festas acompanhadas de vinte orgãos, a entoarem solfas diversas ao mesmo tempo: este o Te Deum, aquelle o De profundis, um o Quômodo cécidit cívitas plena populo, outro o Cantemus Domino, qual o Miseremini mei, qual o Ecce sacerdos magnus.
«Se alguma vez se incensou presente n’este orbe a Liberdade, derrubaram-n-a do seu pedestal as aguas do diluvio de Noé, quando rojavam cada coisa para seu cabo. Ao que havia de ser cidades, ficou o pedestal razo com o formoso nome d’ella em lettras de oiro. Ao que tinha de ser ermo, pertenceu, mas sem nome nem titulo, a figura quasi inteira. Aqui pregôam-n-a; lá disfrutam-n-a:, assim vai tudo.
«E quando não, mettei bem por dentro a mão na consciencia, e, deixado o palavrorio, que não sôa muito senão por ser vazio, como tambor de foliões, dizei me, ou dizei-o a vós mesmos: ¿Quem mais livre, que homem que desperta recobrado ao romper d’alva, por se lhe ter o somno acabado, e não porque ruins pezares lhe repiquem, ou o estremunhem alvoroto de praças, e reboliço de visinhos, pois diante de suas janellas o que só se meneia e conversa são arvores, e por cima do seu tecto não moram senão hervas, que mal ciciam, e só recebem de visitas passarinhos ou borboletas? ¿Quem mais livre?