«Se aqui, para onde a fortuna me arrojou, tão longe do meu ninho, está escrito que haja de acabar a cançada vida, quero que em minha pedra raza, se a tiver, se possa escrever: Amou a terra onde jaz, como se d’ella fôra. Quanto poude e soube, tudo lhe deu de boa-mente.»
Era em Janeiro de 1848. Em todo esse anno, que andei comvosco, e em todo este, que só vos visitei, dizei se desmenti, com as obras a promessa. Não desmenti, não. Quanto soube e pude tudo de muitissimo boa-mente dei á vossa terra, e amei-a como oxalá os seus filhos a amem sempre.
Entretanto, a sepultura, que eu principiava a entrever aqui, era mais uma illusão, se a morte em poucos dias me não tomar. Vou procural-a mais longe, muito longe, pois só a desejo ter onde os meus trabalhos me houverem grangeado um prediosinho, em que me enterre eu mesmo antes que me enterrem, e, morto para o mundo, viva ainda alguns dias para os meus, para mim, e um pouco para a posteridade, se podér ser. Res non relicta sed parta. Quero teimar até ao cabo n’esta minha humilde ambição já de muitos annos.
Se vos não enfada ouvir louvores do vosso viver, do unico viver a que tenho inveja, vou dizer-vos o que eu na minha terra, que bem grande é, bem formosa, e bem cheia de delicias, escrevia ha tres annos, com toda a sinceridade do meu coração, como agora e como sempre. Escutae, escutae:[9]
[9] O seguinte é excerpto do Preambulo do Presbyterio da Montanha a pag. 80 e seg. Por ainda se não achar publicado, nem de todo impresso tal livro, e por fazer muito ao meu proposito, me permitti a transcripção.
Castilho.
«¡Se jamais virá tempo de eu poisar em torrão meu, debaixo de sombras minhas, a cabeça encanecida e regalada! ¡Uma barraca de poucas braças, mas revestida de rosas e limas, como o presbyterio! á roda, tanto de fazenda... quanto o filhinho mais pequeno atravessasse correndo de um só fôlego; mas isto em solidão bem solidão, onde só os astros me enxergassem, só as estações me visitassem, e da banda do mundo nada me chegasse, senão o vento, já expurgado, e esquecido de humanas vozes.
«Tal casa e tal quinta, ser-me-hiam mais que morgado, mais que palacio e reino: paraizo terreal, e digno vestibulo de outro melhor.
«Ahi me reverdecêram o coração e mais o espirito, que me elles por cá trazem tão lastimosamente desfloridos e murchos. Por si se retingiriam os cabellos com o franco sol, remoçador de quanto existe. A lyra interior volveria a cantar espontaneamente, como harpa eólia entre jasmineiros, pendente em hombral de gruta ás virações da primavera.