Despedida

SUMMARIO

Adeus para sempre a S. Miguel.—Saudades.—Como é o coração de um poeta.—Continua a ambicionar a vida rustica.—Panegyrico d’ella, extrato de um livro inédito.—Memora os bons desejos que teve a bem da Ilha.—Excusado sermão a estadistas.—O que o autor tentou, além de alvitramentos.—Sociedade dos Amigos das Lettras.—Escolas.—Novo systema de leitura.—Tratado de versificação.—Mnemonica.—Curso de poesia; outro para damas.—Curso de Latim.—A Sereia, jornal projectado.—Gravura em madeira.—Lithographia.—Typographia.—Excitação na mocidade.—Applicação da poesia a assumptos serios.—Hymnos da Industria, das Escolas, dos Lavradores.—Curso de Hygiene.—Conselho industrial.—Caixa economica, Banco industrial e Montepio.—Commissariado dos estudos.—Solar de Artes e Lettras, e dotação.—Insiste-se fortemente n’esta ideia civilisadora.

Hora solemne e triste é esta para mim; e ¡oxalá que para vós tambem o seja um poucochinho! Após tão amigavel convivencia de dois annos, trago-vos despedidas, e para sempre.

Sequer, estamos nas espaçosas noites de Dezembro; e como já me vêem com a cinta prestes, o escaço fardel ás costas, e o bordão de peregrino outra vez em punho, não me hão-de levar a mal se n’esta derradeira pratica por ventura me dilatar.

¡Custa tanto a arrancar os pés d’onde os tivemos por decurso de oito estações! ¡mais de cem semanas! ¡mais de setecentos dias e outras tantas noites!... Quando um coração chega a fazer cama (mas que fosse entre espinhos) já não sabe como se erga. Qualquer lado do horizonte, por mais risonha luz que de lá o chame, lhe faz medo.

¡E então o coração de um poeta, que é a mais amoravel coisa de quantas Deus cria!... O coitado lançaria radiculas para se apegar, até a um rochedo! Em não achando a quem ame, logo muito de pressa o inventa. Faz lembrar esse animalzinho bemdito, que do seu interior fia a seda em que se envolve; esconde-se na sua doirada ou prateada esphera, tão macia e mimosa, livre das distracções da luz, dos sons, dos cheiros, dos calores, dos frios, e dos toques lá de fóra; rico de sua pobreza, vive vida encantada de mysterio, de que só ha-de sahir morto, ou com as azas esplendidas para voar aos céos, depois de ter aboiado em fragrancias e raios de sol, por cima de labyrintos de flores...

Boa sina parecerá aquella, mas ninguem a inveja. Só pelos espaços da phantasia é que o enjeitado da fortuna, chamado poeta, pode encontrar alguma vez com que assim se console. A vida real por todas as juntas lhe doe; todo o movimento o afflige e dilacera; quantas vezes se aparta e muda, tantas se fina.


Quando a Sociedade promotora da vossa Agricultura me commetteu escrever para vós o seu Jornal, que eu me estreei conversando logo comvosco largamente como amigo com amigos, foram estas (ainda me lembra) as minhas ultimas palavras n’essa introducção: