Mas como o dia é de jubilos e boas-festas, chamemos pelos nossos camponezes, como os Anjos chamaram pelos da Judêa, para que venham, primeiro adorar, como nós, e depois alegrar-se com ufania.
Não foi nos palacios, não foi em Roma, não foi no Capitolio, que o Filho do Senhor de tudo quiz nascer; foi nos campos, foi na mais rustica poisada; não entre Principes, se não entre pobres. Os animaes, symbolos da lavoira e do trabalho, lhe fazem côrte. Os primeiros convocados para o verem, os primeiros que o louvam, o beijam, e o querem, são os pastores.
Os primogenitos do Ceo fostes vós, e soil-o ainda, homens simplices e laboriosos. Os das pompas, os da riqueza, os da sciencia, virão tambem prostrar-se a este Menino, que ennobrece a tudo quanto se prostra; virão, que o destino d’Elle é a dominação universal; mas só chegarão depois de vós. Para vós, bastou um convite melodioso; para elles será necessaria uma revolução nos astros.
¡Eil-os emfim, os Reis!
Noite de Natal, ¿quem te não ama?! Noite das virgens e das mães, dos meninos e dos velhos, dos camponezes e dos Soberanos, noite dos Anjos e dos homens, ¿qual será o coração que tu não alvoróces? Até o incrédulo se alegra, vendo refulgir no meio das trevas o templo enflorado, e escutando-lhe os cantares triumphaes. Do alto dos campanarios rebentam á porfia os repiques, luctando com os ventos impetuosos do inverno, e vencendo-os, e indo levar uma saudade, ainda suave, ao leito solitario do paralytico.
Toda esta musica, toda esta claridade, todo este calor, toda esta vida no coração do inverno, e á meia-noite, condizem com uma Religião, que venceu o inferno, os Cesares, os deuses; que triumphou, triumpha, e triumphará sempre, dos temporaes da perseguição, das trevas da ignorancia, e das trevas, muito mais trevas, da presumpçosa Sciencia.
Sim, sim; o presepio, tal como ainda ao presente o vemos reluzir allumiado, até por sotãos e cabanas, o presepio com todos os seus chamados anachronismos, com os seus castellos artilhados, os seus monges, os seus Romanos antigos, os seus pastores modernos, os seus camellos carregados de oiro, as suas gentis damas, e os seus pavilhões campestres inglezes; embora nescios o commentem por delirios e absurdos artisticos, é a mais verdadeira de todas as Historias, e de todas as Prophecias a mais infallivel: é um espelho longinquo, no qual todos os pontos da terra e todas as edades se estampam, convergindo para a adoração do Creador Universal.
1849.