25 de Dezembro

Nada mais inexplicavel, que a opposição constante, que de muito fazem ao Christianismo tres raças de homens, todos influentes: os chamados Liberaes, os chamados Philosophos, ou sabios, e os chamados Mundanos, ou partidarios dos deleites.

Os primeiros deviam ver n’elle o santo dogma da egualdade e fraternidade; os segundos, a chave que abre todos os enigmas, e o unico principio da Moral; os terceiros, as unicas verdadeiras alegrias concedidas á terra, a serenidade do animo, as esperanças infinitas, a beneficencia mutua e universal, a arte divina de converter os tormentos em gosos, as humiliações em glorias, a velhice em alvorada, e a morte em triumpho.

Os que, não podendo chamar outra coisa ao Christianismo, para o deshonrarem lhe chamaram triste, não tinham jamais comparado os rostos da multidão pobre e humilde, que pela manhan cedo sai do templo mui serena, aos semblantes do tropel, que, pelas horas mortas, vem golfando dos espectaculos, das assemblêas, das espeluncas da crápula e do jogo, cançado, aborrido, parte melancolico, parte cuidadoso, parte ébrio; uns vazios do oiro que lhes havia de sustentar os filhos; outros, opulentados a subitas, para se arremessarem mais affoitos á ruina; estes, com a fama denegrida; aquelles, com a alma hydrophóbica ainda a babar veneno; frutos de cinza e fel dentro em casca brilhante; favos escondidos no escuro vão de um tronco.


Todas estas excellencias nos traz epilogadas a festa grande, que prende ao fim do anno velho o principio do anno novo, e que é uma como absolvição do preterito, e santificação do porvir.

N’estes treze dias temos em formoso drama um symbolo completo da origem, da indole, e dos fins, da Religião do Nazareno; é a apotheóse da humanidade; a subversão das pompas vans; a infusão do Ceo na terra, e a escada mystica da terra aos Ceos, que apparece resplandecente no meio das trevas com as azas prateadas de todos os Anjos, e ressoando com os córos de ¡GLORIA E PAZ; GLORIA AOS CEOS, E PAZ AOS HOMENS DE BOA VONTADE!


¡Que risonha e que magnifica não é, ao mesmo tempo, a primeira scena d’este drama, annunciado e preludiado, largos seculos havia, pelos grandes lyricos da Fé, os Prophetas!

Eis o presepio de Belem. Os mysterios, em tão pequeno espaço contidos, adoram-se com o silencio. Adoremol-os.