Aqui estão, ó meus morgados do trabalho, ó meus fidalgos da gleba, aqui tendes as minhas ambições, que, de esperança em esperança, e de poiso em poiso, depois de me haverem trazido até aqui, me levarão até aos fins do mundo.

Onde quer porém que me ellas conduzam, ou a Providencia m’as realise, ou o meu lidar continue a ser vazio de futuro, sempre entre as minhas saudades vicejará a vossa Ilha; aqui, onde eu, pensando em vós, devaneei os meus mais entranhados devaneios de humanidade, e com tanta fé, que ousei declaral-os, sustental-os, defendel-os; a vossa Ilha, a nossa lustrosa esmeralda engastada na saphira immensa dos mares, e em que o ceo e as terras de longe se estão revendo; a vossa Ilha, este açafate de frutos, onde, se não encontrei o sepulcro ao pé da choupaninha (como desejava), sei que deixo bons amigos, que me defenderão o nome, quando alguem, por não ter acabado de me conhecer, m’o atassalhar.

¡Não depender de mim, como de outros depende, o bemaventural-a! ¡O bemaventural-a era tão facil! a ella, e a todos os dominios d’esta nobre, d’esta memoranda, d’esta desbaratada (mas ainda não perdida) Monarchia; tão facil, tão suave, tão seguro, tão glorioso, tão divino!

¡Dizer que ha pessoas, que teem nos destinos do mundo uma especie de omnipotencia, e que esta lhes não influe nem um vislumbre do amor infinito! Vê-se, e não se acaba de entender.


Quando um potentado desce os degraus do seu jazigo, ¿que que é o que leva?

¿Os palacios, de que já outros estão tomando posse?

¿Os canticos dos lisonjeiros, que lhe deram costas logo que cessou de assignar graças?

¿Os saccos de oiro, que não cabem por aquella portinha?

¿Os cordões e gran-cruzes, que a mortalha repulsa, porque é séria?