¿Os loiros das victorias, que n’essa hora aterram, porque se vêem claramente suar sangue?

Não. Para dentro d’aquelle carcere pomposo, por entre aquelles hombraes estreitos, por onde se entra e se não sai, nada passaria com elle, para derradeiro consolo, senão a claridade das luzes que lá por fóra deixasse accezas, senão os eccos das benções, que para si andasse semeando no semear para os outros felicidade.

¡Oh! ¡quão poucos, quão poucos pezam isto em quanto podem! ¡e quão menos, quão menos ainda, deixarão de o pezar, e ha de pezar-lhes quando já não fôr tempo!


¿Quereis vós saber como todo o mundo se faria de repente bemaventurança? Era se Deus ordenasse antecipada, e já agora, a ressurreição dos mais ruins Principes, Ministros, legisladores, chefes de provincias, Prelados, em summa, de todos os perversos ou negligentes maioraes de nações, de povos, de tribus, de hordas, de familias; e, ressuscitados com a experiencia da agonia e sciencias de além-mundo, lhes ordenasse recomeçarem seus governos.

Os unicos rostos tristes e pallidos sobre toda a superficie da terra, seriam os d’estes penitentes do poder. Quanto mais Neros, mais Titos; quanto mais Caligulas, mais Trajanos; quanto mais Claudios, mais Aurelios; quanto mais demonios na primeira vida, tanto mais Anjos e Semideuses sahiriam na vida nova.

Ó gente esquecida dos outros, e de vós, e de vossos filhos, ó somnambulos que não acordais aos clamores dos povos, e ao estrépito das aldeias que se arruinam, nem ao ranger ameaçador das cidades que apoz ellas se virão a baixo sobre vós, ¿não ha já em vosso coração fibra que não esteja dormente?! ¿nem a do egoismo? ¿Não haverá, com valentia para vós despertar, senão a trombeta do dia ultimo? Lazarones da pseudo-politica, vós sonhais estirados ao sol sobre a terra inculta; e essa terra inculta já foi lava; e por baixo d’essa lava ainda rugem vulcões.


¡Que dó, não poderem estas vozes de tanta verdade, de tanta lealdade, de tanto e tão entranhado amor, não poderem sahir do colmo rôto do casal!

Agora, que tudo é sizudo e meditativo, agora que estas arvores despojadas pregam desenganos, agora que o rugir das folhas sêccas sob os pés agoira vaidades, agora que o anno expirando induz a deitar contas, agora que o seculo termina a sua primeira metade, estes cincoenta annos tão de sangue e de cinzas, para poderem fecundar os cincoenta que ainda lhe restam, ¡não poderem agora estas vozes tão benévolas, ser tomadas por algum dos Seraphins, que de noite espalham em segredo os bons conselhos, para irem ser depostas de mansinho onde ha forças de sobejo para milagres!...