¿Essa gente não verá estrellas lá por cima? ¿Voarão tanto as suas carroagens, que lhes não deixem perceber a fome que gira pelas ruas? O vinho, que lhes jorra de crystaes doirados em seus festins, os frutos que lhes rescendem em prataria lavrada, ¿nunca lhes trariam á lembrança o pobresinho do rustico, de quem tudo isso, e tudo, lhes veio, e que Deus sabe se tem pão para o filhito que desmama?

Deixal-os lá... A Providencia os fará seus quando fôr tempo. ¿Quem sabe se elevados a poderosos vós e eu valeriamos mais do que elles?

Parece-me que as almas são n’isto como as arvores: as mais agigantadas estão nos valles infimos; quanto mais costa acima pelas serranias, tanto mais se apoucam. Segredos do Altissimo, não os havemos nós de julgar. Dêmos-lhe graças de termos nascido na planicie.


De mim sei eu que, se não tenho feito nenhum bem aos meus semelhantes, não é á mingua de muito bons desejos; d’estes, quando são verdadeiros, e se provam, pode um homem, sem pejo, gloriar-se.

Mas hoje comvosco só quero falar do que hei desejado em vossa mesma terra; e não é tanto por vangloria (ainda que talvez poderá esta andar tambem ahi sem o eu cuidar), como que para estes pontos aqui recordados á pressa, em forma de testamento nuncupativo, se reconsiderem, e os que parecerem de préstimo se levem por diante. ¡Como eu não applaudirei lá ao longe cada nova de progresso da vossa Ilha!

No Prologo do vosso Agricultor escrevia eu, se vos recordais, estas palavras:

«Sizudamente discutimos comnosco, se os intereses moraes haviam de ser tambem aqui representados, como em a nossa Revista Universal; e entendemos como a Sociedade, que sim, mas que só fosse de longe a longe. Dentro na fazenda está a casa; dentro na casa o colono, e dentro no colono espirito e coração.

«A Natureza, com a necessidade do trabalho, para que se vivesse, creou a necessidade de repoiso, para que se meditasse. A Religião, sobre cada seis dias de servir, impôz, como corôa, um de cantos, de preces, e de amor. O exercicio do animo e do corpo mutuamente se aliviam.

«A virtude e o prazer, a moral e a litteratura, poderão vir nas boas horas, alguma vez, semear de boninas suas estas paginas tambem suas. ¿E por que não? Deus, que fez as arvores, madeiras, cortiça, frutos, resinas, oleos, gommas, cera, farinhas, pão vestidos, medicamentos, ¿não lhes disse tambem—Verdejae, flori, espalhae sombras como tendas, murmurios como harpas, fragrancias e delicias como noivas? ¿E não lhes disse sobre tudo—Apontae sempre com os vossos braços dadivosos para o meu Ceo?»