—Não tarda muito
que eu não entre a sonhar ¡Que bellos sonhos
não devem ser os de uma noite d'estas!
—Tenha lá mão com isso; o que eu prometto,
para espalhar-lhe o somno, é uma enfiada
de casos que eu passei na minha vida;
tão rara, que podia ir á Gazeta!
*
Uma vez ia eu só; era em Novembro;
chuviscava e fazia um tal escuro
que era metter os dedos pelos olhos.
(Lembrou-me esta a proposito da mula
escoicinhar sem causa.) E era bom tempo
aquelle; andava Christo pelo mundo;
tinha eu mais duros, que patacos hoje,
e andava o oiro aos pontapés da gente;
tambem... ¡já cá não torna! O grande caso
é que n'aquelle tempo era eu solteiro,
e rapaz bonitote; e havia muitas
que me fizessem fogo; eu cuido, e é certo,
que não pelos vintens; nem pela cara;
mas isto de casar co'um almocreve,
seja elle o diabo dos infernos,
parece a todas bem: é uma delicia
ter o seu homem só de vez em quando,
em logar do espião de um pegamaço
com residencia fixa em ar de abbade.
Mas... não é bom falar na vida alheia.
*
Como lhe ia contando, era almocreve;
chamavam-me o Chupista. ¡Oh! que bolaxa
que eu pespeguei na cara do coécas
que me inventou a alcunha em certa venda!
qualquer creança lhe moia os queixos;
já lá está onde o pague ¿Onde ia o ponto?
¡ah! sim; era almocreve e recoveiro;
e andava com dez machos todo o anno
a correr quanto valle e monte havia
para cobrar o fôro aos Frades Cruzios.
Que isto do fôro é bom, nem que pareça;
uns pagam-lhe borel, outros centeio,
queijos, presuntos, lan, cevada, vinho,
gallinhame por arte do diabo,
ovos, e até o musgo onde se empalham.[1]
Não ha n'um pardieiro um desgraçado
que não deva pagar alguma nica.
Já vê donde me vinha a minha alcunha;
mas sem rasão; é porque andava ás ordens.
Tambem já tenho ouvido alguns autores,
tal como o meu cunhado, e mais uns certos,
que é coisa bem mal feita a tal derriça;
Mas bem feito ou mal feito, eu não sou Papa.
Vamos cá co'o meu conto.
*
Era uma noite,
cuido que já lh'o disse, ali por Maio,
e fazia um luar... que era um consolo.