Eu saio a meu avô; se é boa a estrada,

gósto de andar de noite havendo lua;
cá pelas brenhas não, que não sou lobo.
Vinha eu mui fresco em mangas de camisa,
em cima de uma carga de presuntos,
pela estrada real, co'os sete machos
a dormitar ao som da chocalhada.
Vinhamos caminhando em certo passo
de quem gosta da noite, ou vem sem pressa,
ou de quem traz comida a gente farta.

*

Que lhe digo, em abono da verdade,
que servir Santa-Cruz não dá desgosto:
pagam bem, fazem festa ao gallinheiro,

vendo os machos no pateo é uma alegria!...
¡aquillo até os olhos se lhes riem!
dão pinga, e de cear, e muitas vezes
vi eu estar vai não vai a dar-me um beijo
o Frade gordo que recebe o saque.
¡Bom tempo! ¡bom de lei! já cá não torna.
Não durma Sôr Doutor.

—Não durmo; acaba.

—¡Acabar! não acabo em toda a noite,
nem que estoire a barriga do diabo.
Inda eu não comecei. Lembra-me um Frade
que havia em Santarem; tinha um cachaço,...
por tal signal que até revia enxundia;
¡e era um demo, o maldito, a beber vinho!...
¡Mas aquillo! a prégar era uma joia;
um sermãosinho d'elle atarantava
e punha tudo azul. Tinha a constancia
de arrumar prègações de duas horas.
N'um que eu lhe ouvi, depois de falar muito...
(e olhe, foi tanto, que eu, e muita gente,
já tinhamos dormido á regalada)
disse muito pausado: «Eu principio.»

Assim faço eu tambem. Todos devemos

tirar das prègações algum proveito.
Ora pois, não me durma, e ahi vai a historia;
porém tenha lá mão, que a levo errada.

*