Nesse dia á tardinha, na estalage
tinha entrado uma velha; era um diabo,
que isso... só visto! pequenina, magra,
muito preta; era um bilro de pau santo.
Tinha pela cabeça um lenço pardo
atado pela barba, um manteo ruço,
e uma mantinha exotica e de agoiro.
Tinha então uma cara não sei como;
nem parecia cara; era um nó cego
que fazia azoar a toda a gente;
mas muito experta; e uns olhos como um bixo.
¡Tambem aquella rez tinha no corpo
muita pipa de sangue de creanças!
*
Cheguei eu á estalage, e ia com fome;
vou-me á carga do fôro, agarro uns ovos,
mando os frigir com mel, que é papa fina;
e então para quem tem de andar de noite
dizem que é bom, que livra do catarro,
já se sabe com quatro pingarolas.
Ia se preparando o meu guizado,
e era um cheiro tão bom pela cosinha,
que isso não ha dizer. Já dois gallegos,
e mais, tinham ceado; andavam tolos
a cochichar, e ás voltas pela casa,
um olho em mim, outro olho na tigella,
e eu muito concho a rir, e a pescar tudo.
Basta dizer que me pediram ambos
que vendesse um quinhão; ¡e isto em gallegos!
*
Emfim, cheirava bem, e estava d'alma.
Mas o monstro da velha era uma estaca
ali muito direita ao pé dos ovos,
com cada olho aberto, ¡que te parto!
Era mesmo um olhar de inveja e zanga.
Logo eu tive má fé co'a tal menina
quando ella perguntou quem era o dono.
Porém quem mal não usa mal não cuida;
sentei-me á meza a codear nos ovos.
Ora agora o vereis: a minha amiga
amúa-se n'um canto, mais vermelha
que um pimentão, e eu sempre a observar n'ella.
Ferra os olhos em mim com tal quezilia,
que a não ser por temer a Deus e a ella,
batia-lhe co'o prato pelas trombas.
Botava cada lagrima... ¡de punho!
dava cada suspiro, a excommungada,
¡que punha medo! accendo o meu cigarro,
pago, monto a cavallo, e sigo a estrada.
Era já noite escura, e um vento frio
como o gran Satanaz.