*
¿Que diabo é isso?
ressona?; ou já na costa anda algum moiro?
—Avante; são as ramas que sussurram.
—Pois deixe-as sussurrar. Vinha eu picando
pela estrada real por ser já tarde,
e a assobiar sósinho o tiroliro.
Vai senão quando, estacam-se-me as bestas.
Á esquerda, como ahi, ficava um monte;
d'esta banda um pinhal muito fechado;
de sorte que o caminho (e então mui longe
de todo o povoado) era um soturno,
que nem Roldão o andava áquellas horas.
Entrei logo a suar e a arripiar-me;
e as mulas n'um inferno de pinotes
sem quê nem para quê; davam taes rinchos,
que se fundia o chão; pregavam coices,
que assoviavam no ar; ¡que contradança!
era uma groza de diabos doidos,
e eu mais doido, no meio, á bordoada.[2]
Aqui digo eu como dizia o Frade
n'outro sermão de um Santo; não lh'o pinto
por não ter um pincel. Mas faça ideia
que tal eu ficaria lobrigando
(¡eu te arrenego diabo!) uma luzerna
a ir e a vir, á roda, e acima e abaixo,
lá longe no pinhal. Que era bruxedo
tive eu logo de fé; muitos que m'o ouvem
riem-se, e tal; deixal-os rir; ha bruxas;
que isso sei eu; ¡e então ali! ¡tão tarde!
Por força era algum sabbado lá d'ellas,
que as taes amigas juntam-se de noite
a fazer os seus sabbados, o mesmo
como nós no Natal á meia noite...
Ha muita comezana de creanças,
sarrabulhos de sangue, cambalhotas,
e umas rizadas..... que até Deus se admira.
No meio anda um pretinho muito gordo,
que é o proprio diabo em carne e osso.
Diz então muita coisa a todas ellas,
dá-lhe lá seus conselhos, toma contas
do que teem feito, e..... acaba a tal comedia.
Untam-se co'uma untura que lá sabem,
transformam-se em corujas e mosquitos,
o diabo e o lume sorvem-se na terra
dizendo boa noite até tal dia,
e ellas voltam-se a casa a armar já outras.
Isto sabia-o eu como os meus dedos.
Lembrou-me a tal gulosa da estalage,
e então é que dei tudo por perdido.
Deitei fóra o cigarro, e entro em voz baixa
(¡sempre isto do pavor faz muita asneira!)
entrei eu co'as mãos postas para as mulas
a pedir-lhes co'as lagrimas nos olhos,
pelas Almas Bemditas, que deixassem
todo aquelle motim, que me perdiam;
que fugissem d'ali, que andavam bruxas,
e que pé ante pé viessem vindo;
que eu promettia uma ração dobrada.
Partimos. De repente desembésta
d'ao-pé da tal luzerna um certo vulto
direito para nós como uma xára.
Com seis milhões de grozas de diabos!
¿quem havia de ser, senão a velha?
Salta n'um pulo a estrada, atrepa ao monte,
chega ao cimo, e de lá muito sizuda
entra a dizer-me adeus, e (¡t'arrenego!)
a fazer-me uma cara dos infernos...
—¿E tu viste-lhe a cara em tanto escuro?
—Certo é que lembrou bem; tambem agora
lá me faz confusão ter visto a cara.
¿Escuro? isso era escuro como um prego;
não sei como isso foi, mas vi-lh'a, e vi-lh'a;
¡assim eu visse Deus! trago-a ainda hoje
tão bem encasquetada no juizo,
que a podia pintar, e era pintura,
que urrariam os bois se lh'a mostrassem.
Quer escuro quer não, vi-a, e está dito.
*
Mas o bom não foi isso; o mais bonito
foi entrar de repente o gallinhaço
nas canastras da carga em cantarolas,
a romper, a fugir, e eu pila pila
para aqui, para ali, correndo ás cegas
sem as poder juntar. Foi se-me a noite
n'esta labutação; de cada canto
sentia um cacarejo, ia ás carreiras,
gallinha... por um oculo. Já rouco,
moido e desesp'rado, ao romper d'alva
vejo as minhas senhoras mui contentes
todas juntas n'um bando ao pé das mulas.
*
Mas alto; esta é peor. ¿Não vê? repare:
¡um clarão para ali!! d'esta nos trincam;
¡meu Deus! ¡onde diabo eu tinha a morte!!
—Alegra-te, Golgan; ¿que noite é esta?
—Para nós ambos de Fieis defuntos.
—De San João.