¡Salvè, principio e fim dos meus passeios!
¡Salvè, ó tu, cujo tecto, alva casinha,
cobre ha perto de um lustro os meus autores,
meus castellos no ar, meus faceis versos!
¡Salvè, co'o teu rosal; co'as tuas limas,
festivo ornato das paredes brancas;
co'o teu portão patente oppresso de heras;
e co'a tua nogueira; e co'o teu cedro,
brasão futuro do obumbrado pateo!
¡Salvè outra vez, meu presbytério! ¡Salvè!
*
Hoje, que o caprichoso do meu estro
(bem sabes se elle o é) deixa inconstante
versos índa no chôco, outros que apenas
vão da casca a sahir, outros que breve
teem de fugir do ninho em vôos livres,
entrou, mal veio a aurora esclarecer-te,
a doidejar-te em roda, a namorar-te,
qual borboleta ociosa ou leve abelha.
Pois que elle o quer.... cantemos-te; e perdôa
se o canto falador, transpondo os cumes
das tuas cerejeiras, fôr mais longe
revelar tua humilde obscuridade.
*
A antiga mediania, a segurança,
a paz, o amor dos Ceos, o amor dos homens,
genios foram, que em bençãos presidiram
aos alicerces teus. De Pário monte
não foi mistér que entranhas te enviassem
chão, columnas, e abóbadas, e estatuas;
tuas portas sem chave não cresceram
lá nas florestas do hemisphério opposto.
Foi visinho pinhal teu sôlho e tecto;
deu-te paredes mais visinho oiteiro;
portões e meza um cedro bom da extrema.
Não custaste nem lagrimas a pobre,
que á força te cedesse a choça avita,
nem odioso suor; e não se dormem
somnos melhores em Belem nem Mafra.
*
¿Que importa que no centro d'estes ermos
vivas tão só, que apenas descortines
n'um dos altos d'em torno esquiva aldeia?
Tu e o templo co'as messes que vos cingem
bastais no quadro agreste; em vós affluem
(como em sua Queluz) nos festos dias
ondas e ondas de amaveis saudadores.
Os rebanhos ociosos não desdenham
tôjo em flor, que te doira o chão das mattas,
d'onde envôltos co' os trémulos balidos,
veem cantos de amorosas guardadoras
endoidecer teu ecco.
Os caminheiros
abençôam-te a sombra; aqui teem fonte,
que em tua relva, ao fresco das parreiras,
detém, dessedentando-as, caravanas
que vão ou veem no alpestre Caramulo.
*