O anjo das flores liberal te arqueia
de bordada verdura as rescendentes
claras janellas.

Um bulicio manso

de amigas vozes teu recinto alegra.
Na sua tépida choça os bois ruminam
ante o feno em montões; dorme no páteo
farto esquadrão lanigero; ao sol pôsto,
cão, dos lobos terror, te vela as noites;
teus gallos as demarcam vigilantes.
Co'a luz primeira arrulha-te alvejando
cypria nuvem plumosa; e apenas saltam
da [dextra mão] mesquinha os grãos doirados,
em torno da gentil madrugadeira
de toda a parte os hospedes revôam.
Bicam por entre as pombas á porfia
a gallinha de filhos rodeada,
o manso grasnador do aquoso tanque,
o vaidoso perú, que ri cantando,
e vós, e vós, mais vivos do que todos,
não chamados, mas sempre a nós bemvindos,
passarinhos do ceo, turba sem dono.

*

Singelo presbyterio, ¡oh! ¡como te amo,
co'o teu ar casaleiro! Amo o teu forno,
tão social á noite; a simples sala,
quasi sempre deserta; a livraria,
deserta rara vez; estas alcôvas,
que enche um só leito; e a adega, assoviada
do alvo sôpro do Norte; e o fuso, e a pia
da cheirosa vendima; e o teu celleiro,
alto, arejado, e tão patente aos pobres,
como as portas do templo convisinho.

*

¡Floresças para o Ceo e para a terra
nos inconstantes seculos! ¡floresças,
feliz, co'o feliz dono, edade longa!
E se, lá no futuro, algum amigo,
sócio dos dias bons, saudoso e triste,
torcendo a estrada, a te pedir viesse
novas do teu cantor,—«Amou me, e amei-o—
lhe dirias mostrando-te; e—«Seus ossos—
juntaria o teu velho—aqui descançam.»

*

Sim; apraz-me cuidar que inda os meus restos,
gratos aos bons d'este recanto obscuro,
onde escapei no seculo de sangue,
cá ficarão n'este ocio, inda alguns dias
do simples montanhez talvez chorados.

*