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Ó Patria, bella Italia do Occidente,
tu que egual a Parthénope repoisas
debaixo da invejada laranjeira
e do mirto florido, ao deleitoso
ruido de aguas limpidas, no abri
de um ceo inspirador tão proprio ao genio,
ó bella Italia do Occidente, ó Patria,
¿era pois fado teu lidar sem fruto
para seres a inveja, a flor das gentes?....
A guerra, sim, te coroou co'as palmas
das quatro partes do orbe, e as naus do mundo
trouxeram a teus pés thesoiros, sceptros.
Mas as flores das artes, mas os frutos
das sciencias, no chão dos outros povos
com tanto custo e com suor medrados,
¿espontâneos no teu medraram nunca?...
¿Tiveste nunca os dons, que em paz florentes
ornam e absolvem da conquista os loiros?
¡Que imperios teem cahido! e tu, tu ousas,
hoje ainda, aspirar á eternidade!!...
Talvez bem perto os seculos se cheguem,
que hão-de ver cego arado andar lavrando
tuas cidades de esquecido nome,
e o rebanho indiff'rente apascentar-se
sobre os teus tribunaes, theatros, praças.
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Vê-te o sol com praser; deixa-te a custo,
Lusitania, que á borda do Oceano
brilhas qual deusa em majestade e em graça.
Deusa, e immortal, te crêram; mas tu jazes
entre tropheos em pó, lavada em sangue.
Deshonrada Cleópatra, inda és bella,
mas já nas veias te circula a morte.
¡Ai de quem nutre as áspides no seio!...
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¡Ó Patria, ó Patria, com que voz tão baixa,
com que pejo te expróbro! ¡Ah! se podéres,
perdôa meu furor, vê só meu pranto;
ó Patria, ó mãe, ó misera querida!...
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¿Que ouvi? ¡longinquo estrondo! ¿que seria?
¡Som de espingardas!... Sim, talvez... são homens
que nos matam irmãos... ¡Alerta!... oiçâmos...
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