IX
O SAN JOÃO NAS FALDAS DO CARAMULO
Dia em que o Poeta plantou por suas mãos um cedro no pateo
da residencia parochial da Castanheira do Vouga
(FRAGMENTO)
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Se, de teus annos na madura força,
a mão que te ora planta inda fôr viva,
essa mesma, já trémula e caduca,
no tronco te abrirá, com pio exforço,
graciosa capellinha, onde sorria
um San-João, o Santo alegre do ermo,
trajo de pelles, juvenil frescura,
olhos nos Ceos, aos pés cordeiro branco.
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N'essa noite poetica e devota,
em que o praser, centuplicando aspectos,
povôa, anima, encanta o mundo inteiro,
agua e terra, ar e ceo, tudo é macio,
em que a velhice, a mocidade, a infancia,
sympathisam no vago da alegria;
quando n'alma insaciavel de delicias
se juntam, com mistura inexplicavel,
ao saudoso passado, aos bens presentes,
as mil visões do esplendido futuro;
quando em laço phantastico se aggregam
da vida e eternidade os pensamentos,
gosos, superstições, fraquezas, cultos,
qual ramalhete de cipreste e rosas
na caprichosa mão das feiticeiras;
n'essa noite, das noites invejada,
a ti concorrerão por toda a parte,
té das aldeias do horizonte extremo,
dançantes bandos que a viola guia.