*

Verás girar seus bailes clamorosos
em redor das estrídulas fogueiras;
ouvirás os seus cânticos em côro
devoto e ennamorado. A bomba foge,
zune fugindo, e sollapada estoira;
o buscapé no ar caracolando
morde n'um, morde n'outro, ameaça a todos,
dispersa os grupos, gasta-se raivando,
e entre os risos rebenta atroando os ares;
ali circula em vórtice perenne
a roda leve espadanando incendios,
chovendo oiro luzente e estrellas alvas;
aqui floreia o fúlgido valverde,
vesuviosinho que arremette ás nuvens;
arranca o vôo e vai rugindo aos astros
o ignívomo foguete estrepitoso.

*

¡E a musica entretanto! ¡e as doces falas!
¡e os protestos de amor! ¡e a prece occulta!
¡e essa mão dada a furto e a furto acceita!
¡e esse olhar falador! ¡e essas virtudes
da meia-noite em ponto! ¡e a flor crestada!

¡e as sortes que a fortuna extrai ás vezes,
e muitas mais a próvida malicia!
¡e a fonte que amanhece entre descantes,
e pasma rindo de se ver coroada
de festões verdes e entrançadas flores!
¡Que noites, que alegrias, que triumphos,
te aguardam no porvir, me estão na mente![9]
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X

O MOSTEIRO

Vós, que sois do amavel sexo
ardentes adoradores,
que girais de bella em bella,
qual leve abelha entre as flores,
que sabeis n'um só momento
a mil deusas incensar,
e pareceis de ternura
não poder-vos saciar,
mancebos, o mundo é vosso;
mil bellas o mundo tem;
mas não choreis as que á sombra
repoisar das aras veem.
Se um jardim, florído, immenso,
encontrais na sociedade,
¿que importa que poucas rosas
lhe furte a mão da piedade?
poucas rosas, que dispostas
vão depois na solidão
lançar mais doces perfumes,
seguras de extranha mão.

Vagae, vagae livremente
nos jardins da Idália Venus;
segui as Nymphas e as Graças
pelos seus bosques amenos;
os prazeres vos rodeiem,
os jogos em torno vôem;
a mocidade vos ria;
espêssas rosas vos c'rôem;
¿que falta aos desejos vossos?
¡ah! soffrei, sem murmurar,
ver d'entre os vergéis florídos
poucas pombas desertar,
poucas pombas, que innocentes,
e temendo o caçador,
vão nos ermos solitarios
buscar um fado melhor.
Do Libano opacos cedros,
de Sião bosque tranquillo,
vós, palmeiras de Idumêa,
prestae-lhes seguro asylo.
Estranhas vistas não turbem
os seus piedosos segredos;
contentes á sombra vivam
dos sagrados arvoredos.
Silencio, paz, e ternura,
alva estrella de innocencia,
e a vista de um ceo risonho,
lhes doirem toda a existencia.

Murmúrio de castas fontes,
perfume de simples flores,
lhes paguem jardins que infestam
os abutres e os açores.
Eu vos lamento e vos chóro,
insensiveis corações,
que de um mosteiro entre os muros
não vêdes senão prisões.
Córae da vossa loucura.
Correi a ver de mais perto
o Eden recatado ao mundo
no seio d'este deserto.
Modestas virgens o habitam,
que só não teem liberdade
de colher em frutos de oiro
as festas da sociedade.
Segui-me, segui-me affoitos,
entremos. Abriu-se o templo.
Seus ermos, ao mundo ignotos,
inteiros d'aqui contemplo.
¿Não vêdes sobre os altares
com graça engrupadas flores
lançar torrentes de aromas,
brilhar co'as mais vivas cores?
N'esses prados invisiveis
tambem pois se eleva a aurora;
sol, e zephyros, e fontes,
lhes dão sorrisos de Flora.