Essas pois, que vós julgaveis
desgraçadas prisioneiras,
teem praseres, teem delicias,
teem jardins, são jardineiras.
Vêde ornar formosa Imagem
rico manto que fulgura,
de oiro e sedas matizado
com vistosa bordadura.
Vêde a grinalda florida;
vêde o ramo; estes jasmins,
estes lirios, estas rosas,
não são já de seus jardins.
Não devem sua existencia
nem á terra nem ao Ceo,
e nem zephyros nem fontes
serviram no augmento seu.
Formou-as arte engenhosa;
poude mais que a Natureza;
deu mais vida ás suas flores;
prestou-lhes egual belleza.
¿Sabeis, que mãos feiticeiras
obraram prodigios taes?
eis o trabalho e os recreios
d'essas piedosas Vestaes.
Ellas no côro apparecem;
e, ao som dos orgãos divinos,
de sua alma aos Ceos se elevam
devotos brilhantes hymnos.
Innocentes e macias,
d'estas vozes a mistura
sem perturbar os sentidos
infunde n'alma ternura.
Em seus canticos não reina
terreno vulgar affecto;
é mais puro, é mais sublime
de seus amores o objecto.
O pensamento que as ouve,
sai da térrea habitação,
deixa os ares, das esphéras
atravessa o turbilhão,
vê do Empyrio as portas de oiro
abertas á humanidade,
rompe audaz, vai submergir-se
no fulgor da Divindade.
Cessa a musica, e de novo
volve a mente ao patrio mundo;
mas dos virgineos desertos
primeiro se arroja ao fundo.
Lá divisa, em liberdade,
nas livres tranquillas horas,
dadas a cantos diversos
estas formosas cantoras.
Na sombra d'aquelles bosques,
n'aquelles molles passeios,
tambem pois das Musas entram
os aprasiveis recreios.
Olhae por fim seus aspectos,
¿Não vedes vós a bondade,
a alegria da innocencia,
as virtudes da piedade?
Eis os Genios que lhes tornam
encantadora a existencia:
as virtudes da piedade,
os praseres da innocencia.
A amisade entre ellas reina;
¿os encantos da amisade
não prestarão, por ventura,
delicias á soledade?
Mas basta, insensatos, basta;
á scena se corra o veo;
não profanem vossos olhos
mais tempo os átrios do Ceo.
Ide no mundo esquecel-as,
em vez de as irdes chorar;
e o vosso mundo vos baste,
como lhes basta um altar.
Mas esperae; respondei-me;
consultae vosso interior:
¿sois ditosos co'os sorrisos
de um falso inconstante amor?
¿Sabeis vós o que amor seja?
¿Satisfaz-se o coração
com esses fogos incertos,
e essa eterna agitação?
¿Não virá talvez um dia,
em que, mais sabios, queirais
unir os vossos destinos
á melhor d'entre as mortaes?
¿Como a haveis de achar no mundo,
no mundo, cujos enganos
vós conheceis, ajudastes,
seguistes, por tantos annos?
Tremereis de um laço eterno.
A vossa pena consiste
em pensardes que a virtude
que não tendes, não existe.
Então aqui vos espero,
n'estes quietos retiros.
Estes muros que insultaveis,
ouvirão vossos suspiros.
Entre estas virgens mimosas,
que severa educação
forma, longe dos humanos,
á sombra da solidão,
viréis procurar o objecto,
cuja ternura innocente
vos deve tornar a vida
risonha, pura, e contente.
Não detesteis um recinto,
onde Amor, onde Hymeneu,
onde um Genio, amigo vosso,
vosso thesoiro escondeu.
Pensae, pensae que ali vive,
cresce em virtude e talentos,
e em graças, aquella que ha-de
doirar os vossos momentos.
Qual arbusto delicado,
que a viçosa louçania
mostrar em seu proprio clima,
em seu proprio ceo, devia,
mas foi por mão inimiga
trazido a estranhos logares,
onde murcho cederia
a influxos de infestos ares,
se da estufa compassiva
lhe não fosse aberto o seio,
onde vegeta e floresce
de arbustos eguaes no meio;
ali não receia as neves;
não treme da tempestade;
gosa o sol; vive no mundo,
vivendo na soledade;
de extranhos somente é visto;
tem louvor; é cubiçado;
mas das flores, mas dos frutos,
não é jamais despojado.
¡Mil vezes feliz, mil vezes,
quem ousa, á luz da verdade,
queimar a máscara d'oiro
ás larvas da sociedade!
Medrae, sagrados mosteiros;
medrae, desprezando a inveja;
jamais fulminar-vos possa
calumnia que em vão troveja.
Brilhae, como ilhas florídas,
no meio do mar profundo
de vicios, crimes, e horrores,
que alaga, que abrange o mundo.
Sêde o asylo das virtudes,
do Eden a propria entrada,
o enlace dos Ceos co'a terra,
do Empyrio a sublime escada.
Coimbra—1826 (?)