XXIX

Ó corações lacerados!
Aguia que um dardo abateu!
Mães que choraes vossos filhos,
Quem me adorava—morreu!

Tenho a nossa despedida
Tão gravada no meu peito,
Que pode lêr-se inda quando
Em cinzas eu seja feito!

Maldita, maldita a hora
Em que te foste operar!
Partiste, e não mais voltaste,
Vidente da beira-mar!

Espelho a que se mirava
Sem vaidades, quero vêr
Dentro de ti, como outr'ora,
Viva a imagem do seu ser!

Leito que prefiro a joias,
Que hei de sempre conservar,
Segreda-me os seus desvelos
Quando a febre me assaltar!

Decorreu por largos tempos
Nosso convivio risonho,
E julgo durar instantes,
E parece tudo um sonho!

Subiste ao céo! oh! sim, creio!
Indigno de nelle entrar,
Tenho a certeza, ao chamar-te,
De me vires oscular!

Todos baixamos á terra
Para um destino cumprir;
O meu iguala o das aves:
Cantar emquanto existir.

Canto-te como se estejas
Ainda junto de mim!
Que importa faltar o corpo,
Se noss'alma não tem fim?