UM PORTUENSE

Leitor

Meu illustre amigo.


Bihé,22 de setembro de1861.


Os grandes heroes que a historia proclama, a mór parte dasvezes o são, assolando a terra, e devastando araça humana. A esses,pois, tal titulo significa uma blasfemia! Em identicas circumstancias,mas por fórmadiversa, que é por certo maior gloria, ao vosso zelo,perseverante vontade, e ácusta de immensos sacrificios a prol das sciencias, e a favor dahumanidade, ella comjustiça e verdade, vos terá de acclamar de seuheroe.
Poderei ser tão feliz que tenha a dita de vos tornar avêr? Se assim se verificar desde já ponho a minhagente ás ordens do meuillustre amigo, para estas paragens, e n'ellas, ou mesmo para qualquerparte que pretenda seguir,a minha pessoa fica desde já tambem á suadisposição.
Assigno-me com toda a consideração
DeV. S.a
Amigo attencioso
Antonio Francisco Ferreira da SilvaPorto

Lui, 14 de setembro de 1868

Antonio Francisco Ferreira da Silva Porto

«A extincção das ordens religiosas, e com ella a de todas as missões, foi perda irreparavel para as nossas possessões africanas, que tanto podiam e deviam ter com ellas aproveitado. As funestas consequencias estão-se experimentando, e desde logo tinham de prever-se: de certo, porque de todo o ponto é fóra de duvida que, missões regularmente constituidas, e d'onde hajam a esperar-se effectivos e avantajados resultados, só por via das corporações religiosas podem obter-se. O que, n'este intuito, podem fazer as corporações religiosas, só ellas podem fasel-o, porque só ellas podem preparar, escolher e ter á mão, mediante os votos monasticos, os obreiros mais competentes; as condições tão especiaes, proporcionadas pelos votos, mormente pelo da obediencia, não ha nenhum outro modo de serem suppridas. É por isso que tanto fizeram outr'ora os nossos missionarios em uma e outra Africa, e na India, e na America, e na China, e no Japão, e na Cochinchina, e em toda a parte; e é por isso tambem que tão pouco têem feito quaesquer outros missionarios não pertencentes ás congregações religiosas: estes vão aonde querem ou aonde podem, aquelles aonde os mandam: para estes, tudo são estorvos e tropeços, para aquelles, sem familia, sem bolsa e sem vontade propria, não ha obstaculo, porque obdecem: estes hesitam, porque deliberam; aquelles obram, porque não carecem de resolver-se. etc.»

«Vou occupar-me do lago Ngami, um dos descobrimentos de que tão grande alardo fez o dr. Livingstone. [No capitulo] 3.º lê-se a pag. 65 o seguinte: Doze dias depois que nos apartámos dos wagons em Ngabisane chegamos á extremidade nordeste do lago Ngami; e no 1.º de agosto de 1849 descemos todos à bacia do lago, e, pela primeira vez, observaram europeus este magnifico lanço de agua.»

«Contando-nos a sua marcha para o interior do continente africano, e o seu encontro com Sebituane, celebre chefe indigena, em o esboço que desveladamente d'elle nos bosquejou, diz o dr. Livingstone: «Tendo conquistado todas as convisinhanças do lago Kumadau (Mculadau), ouvio fallar dos homens brancos, que viviam na costa occidental; e esporeado pelo que parece ter sido o sonho de toda a sua vida, o desejo de abrir communicação com os brancos, passou ao sudoeste.» Mais adeante se lê: «Sebituane (Xabitane?) formou o designo de descer o Zambeze até ás terras dos homens brancos. Tinha a idéa fixa, que não sei d'onde lhe viera, de que, se possuisse uma peça de artilharia, lhe seria possivel viver em paz. Sebituane passara a vida na guerra, e todavia ninguem mostrava desejar a paz tanto como elle. Um propheta o persuadiu a voltar de novo para oeste. Aquelle homem, por nome Tlapano, era chamado «Senoga», isto é, que trata com deuses... Tlapano apontando para o oriente, exclamou: Alli, Sebituane, vejo fogo: evita-o: é fogo que pode abrazar-te. Os deuses dizem que não vas alli.» Voltando-se para o oeste, exclamou: «Vejo uma cidade e uma nação de homens negros, homens da agua: o seu gado é vermelho: a tua tribu está a acabar, e toda será destruida: tu has de governar os homens negros, e depois que os teus guerreiros tiverem captivado o gado vermelho, não consintas que os donos d'elle sejam mortos. São elles a tua futura tribu, elles hão de formar a tua cidade. Sejam poupados, para que te obriguem a edifical-a. E tu, Ramosini, sabe que a tua aldêa será totalmente arruinada. Se Mokari se apartar d'aquella aldêa elle perecerá primeiro, e tu, Ramosini, perecerás ao depois.» Com respeito a si proprio accrescentou. «Os deuses foram causa de que outros homens tivessem agua para beber; porém a mim só me concederam a pessima bebida do chakuru (rhinoceros.) Chamam-me para si. Não posso demorar-me mais.»

«Conta o Dr. Livingstone que, tendo-se dirigido de Naliele a Sesheke (deve ser de Rinhande), cento e trinta milhas ao nordeste, e descoberto o Zambeze no centro do continente, e visitado o paiz limitrophe, fôra procurado, e o seu companheiro Oswell, por muitos individuos, que trajavam baetas de differentes cores, e um d'elles algodão pintado; e nos informa de que taes mercadorias eram obtidas por via dos Mambari, que demoram nas proximidades do Bihé, os quaes as tinham trocado por creanças de ambos os sexos. Accrescenta que, em 1851, se realisara um rasgate de duzentos rapazes de 13 a 14 annos de idade por espingardas portuguezas, as quaes tinham a marca de Ligitimo de Braga. Ora os Mambari eram, por assim dizer, commorcãos do Bihé, e estavam em intimas relações com os portuguezes, com quem traficavam em escravatura, e de quem eram corretores, e a quem, como é sabido, e, como veremos, attesta o mesmo Dr. Livingstone, acompanhavam nas suas excursões commerciaes pelo interior de todas aquellas regiões. Não póde pois deixar de ter-se por certo, porque se torna incrivel o contrario, que tinham dado os Mambari largas noticias do Zambeze central.»

«Quando os Mambari (narra Livingstone) divulgaram entre os seus, em 1850, noticias favoraveis do novo mercado, aberto no Oeste, muitos mulatos portuguezes, dados ao commercio da escravatura, foram induzidos a ir alli em 1853; e um, que similhava perfeitamente um portuguez, chegou a Liniante (Rinhande?) emquanto eu alli estava. Este homem não trazia mercadorias, e affirmava ter vindo unicamente com o fim de indagar que sorte de fazendas teriam sahida no mercado. Pareceu-me muito transtornado com a minha presença. Sekeletu (Hiquereto?), deu-lhe de mimo um dente de elephante e um boi, e, tendo-se (o portuguez) encaminhado a distancia de perto de cincoenta milhas a Oeste, levou comsigo uma aldeia inteira de Bakalahari (Bacalaliari?) pertencente ao Makololo (Macorrolos?). Trazia comsigo grande numero de escravos armados; e como todos os habitantes da aldeia, homens, mulheres e creanças foram levados, e o facto ficou ignorado até muito tempo depois, não se sabe se elle realizou o seu intento por meio da força, ou se mediante seductoras promessas. Em todo o caso a escravidão foi a sua sorte. O portuguez era conduzido n'uma maca, dependurada de duas varas, de modo que tendo a configuração de um sacco, os Makololo, o nomeavam «o pae-do-sacco.»