«Mpepe (Pepe?) favorecia estes commerciantes de escravos, e elles, segundo o seu costume, fundavam as esperanças de se tornarem preponderantes no bom resultado da rebellião meditada. Conheceram que o apparecer eu em scena havia de pezar na balança contra os seus interesses. Um grande golpe de Mambari tinham vindo a Liniante (Rinhande), quando eu andava herborisando nos prados ao sul do Chobe (Rio Quando?). Chegando-lhes a noticia de eu estar alli proximo, mudaram de rosto; e quando alguns Makololo, que nos tinham ajudado a atravessar o rio voltaram com os chapéos que eu lhes dera, os Mambari fugiram precipitadamente. É do costume que os visitantes peçam licença com formalidade antes de se retirarem da terra do chefe onde se acham, porém a apparição dos chapéos fez que os Mambari enfardassem á pressa. Os Makololo informaram-se da causa da precipitada retirada, e lhes disseram que, se eu alli estivesse, lhes tomaria os escravos e as fazendas; e posto que Sekeletu lhes assegurasse que eu não era salteador, mas sim homem de paz, fugiram de noite, achando-me eu a sessenta milhas de distancia. Marcharam para o norte, sob a protecção de Mpepe, construíram uma forte estacada, d'onde alguns mulatos, commerciantes de escravos, capitaneados pelo portuguez nativo, continuaram no seu trafico, sem fazerem caso do chefe, em cujo territorio tinham feito incursão com a maior semceremonia.»
«Accresce que, n'outro logar Livingstone, referindo-se a este mesmo facto, accrescenta: Alguns Mambari nos visitaram quando estavamos em Naliele.» São da familia Ambonda (Quimbunda?) que habita o territorio ao sueste de Angola, e falla o dialecto bunda (Quimbundo?) commum aos Barosse, (Brose, Bruse?) Baicie, etc. São tão negros como Barosse, mas vive entre elles grande numero de mulatos, distinctos pela sua côr peculiar de amarello doente. Os mulatos, os portuguezes nativos, todos sabem lêr, e escrever, e o cabeça do bando, se realmente não é portuguez, tem o cabello europeu, e obrigado provavelmente pela carta de recommendação do cavalleiro Duprat, arbitro por parte do governo de S. M. F. na commissão mixta ingleza e portugueza na cidade do Cabo, mostrou-se sinceramente desejoso de apresentar-me todos os bons officios ao seu alcançe. Estas pessoas, estou certo, foram os primeiros individuos de sangue portuguez, que viram o Zambeze no centro do paiz, e chegaram lá dois annos depois da nossa descoberta em 1851.»
Mr. Oswell e eu nos dirigimos para Sesheh (Quiceque?) a cento e trinta milhas ao Nordeste, e, no fim de junho de 1851, fomos recompensados das nossas fadigas com o descobrimento do Zambeze no interior do continente. Isto era de grande momento, porque d'antes não se sabia que existisse alli aquelle rio. Os mappas portuguezes todos o representam como tendo origem muito mais a Éste do lado onde nos achavamos, e se em algum tempo tivesse existido coisa que semelhasse uma serie de postos commerciaes atravez do paiz, entre as latitudes 12.° e 18.° Sul, esta magnifica porção d'aquelle rio devia ter sido conhecida. Nós o vimos no fim da estação estiva, tempo em que o rio está mais diminuido, e comtudo levava então corrente de agua profunda na largura de tresentas a seis centas jardas. Mr. Oswell declarou que nunca vira rio tão formoso (que não tem em tal logar formosura, visto ser despido de arvoredo), nem mesmo na sua India. No tempo da sua inundação annual eleva-se perpendicularmente vinte pés e alaga quinze ou vinte milhas de terras adjacentes ás suas margens.»
«Fallando do reino de Matiamvo, e do desejo que tivera de visitar este potentado, diz o dr. Livingstone: Que lhe asseguram, assim os commerciantes indigenas, como os naturaes de Balonda (Calundas?) que um braço consideravel do Zambeze, corre no territorio a leste da capital, e caminha ao sul. «Todo este braço (accrescenta o dr. Livingstone) incluindo o ponto, d'onde toma a oeste, para Masiko (Machico?) está assignalado no mappa (d'elle Livingstone) provavelmente em demasia ao nascente. Foi assim marcado quando eu pensava que o Matiamvo e Cazembe ficavam mais a leste do que tive ao depois motivo para julgar. Sendo todas estas indicações derivadas do testemunho dos indigenas, eu as dou com desconfiança, e como carecendo de ser verificadas por novos exploradores.
«Expondo a extranheza que lhe causou o phenomeno de um rio correndo em duas direcções oppostas, nota o dr. Livingstone que não advertira, quando tinha atravessado o Lotembua, qual direcção toma a corrente d'este rio; mas que, tendo feito reparo, ao achar-se da outra banda do lago Dilolo, de que seguia para o sul, presumiu que nascia no grande paúl, que observara indo para o nordeste, e continuava correndo para o meio dia; porém que chegando á margem meridional, ali o informaram de que a parte do rio, que tinha acabado de atravessar, caminha ao norte, e não desagua no lago Dilolo, mas sim no rio Kasai. Posto que eu não observei a corrente (adverte Livingstone) de nenhuma sorte duvido de que seja exacta a asserção, que aliás me foi confirmada, nem de que, por conseguinte, o lago Dilolo sirva de reservatorio commum dos rios que vão correndo uns para o nascente, outros para o poente.»
«Eis aqui as palavras do homem tão competente, como insuspeito a que me referi, fallo de mr. V. A. Malte-Brum, que dando noticia do mappa de Zambezia e Sofalla do sr. visconde (hoje marquez) de Sá da Bandeira, que vae publicado no fim d'este volume (do exame) assim se explica. «[A carta] que temos á vista comprehende a parte da Africa Austral, que se estende do 10.º ao 24.º grao de latitude meridional, e do 25.º ao 41.º gráo de longitude oriental do meridiano de Greenwich.
O mappa representa o curso do Zambeze desde Seshek, capital dos Makololos, até á foz do rio, e tem por objecto fazer conhecido, qual é sobre as suas duas margens, e no interior do continente africano austral, os estados dos conhecimentos e dos dominios portuguezes.
Não ha duvida em que, por esta costa oriental da Africa, os portuguezes hajam ha muito penetrado muito mais ávante do que nenhuma nação europea; mas tambem nada mais certo do que, quer fosse por motivos politicos, quer fosse por indifferença [relativamente] aos interesses scientificos, haver-se guardado silencio ácerca de descobertas que só o engodo commercial tinha provocado. Hoje os portuguezes parece que soffrem o castigo d'este silencio premeditado; silencio que deu naturalmente occasião ao esquecimento; e comtudo elles reclamam a prioridade das descobertas feitas pelo reverendo David Livingstone sobre as margens do Chire e do Nhanja... O mappa permitte que se faça idéa exacta da extensão que tinha adquerido o dominio portuguez sobre a costa de Sofalla, e sobre as margens do Zambeze, e contem indicações uteis, que debalde se procurariam n'outra parte.»
«Procurando certificar-me se por ventura Santura (Sanduro?) tinha sido visitado em algum tempo por homens brancos, não pude achar vestigios de tal visita: não existe prova de que alguem da tribu de Santura tivesse visto um homem branco antes da minha chegada e de Mr. Oswell em 1851. Aquelles povos não tem, é certo, recordações escriptas; porém os acontecimentos notaveis são commemorados por nomes, como Parke observou ser costume nas terras por onde viajara. O anno da minha chegada foi honrado com o nome do anno em que chegou o homem branco. Depois da primeira visita de minha mulher muitas creanças tiveram o nome de Ma-Roberto (applicado á mãe e não ao filho, synonimo das primeiras lettras; depois do traço é o nome do filho. A tribu Quimbunda serve-se das lettras Ma, para designar Mãe) ou mãe de Roberto, nome do seu filho mais velho, outros tiveram o nome de Espingarda, Wagon, Monare, Jesus, etc, porém posto que os nossos nomes e os dos nativos portuguezes, que vieram em 1853, foram adoptados, não ha vestigio de que tivesse logar cousa semelhante mais cedo entre os Barotse: a visita do homem branco é acontecimento tão notavel, que, se tivesse occorrido durante os ultimos cem annos, devia ter d'ella ficado tradição.»
«É muito para notar esta insistencia do dr. Livingstone em que não eram os portuguezes conhecidos dos Barotse. Esta demasiada insistencia faz desde logo nascer suspeitas no animo do leitor desprevenido, e mórmente se porventura está familiarisado com a maneira de escrever do celebre missionario: n'elle a insistencia longe de significar segurança, quasi sempre indica hesitação, e não acontecerá agora o mesmo? Examinemos.»
«Em uma nota ao logar citado diz o dr. Livingstone: «Os Barotse dão a si o nome de Buloiana, ou pequenos Baloi, como procedendo do Loi ou Lui, segundo a commum pronunciação. Lui tem sido visitado pelos portuguezes, porém como a posição de Lui não está bem fixada, voltaram-se as minhas indagações para verificar se porventura era a mesma que a de Naliele. Perguntando ao cabo dos Mambari, chamado Porto, se tinha ouvido dizer que Naliele tivesse anteriormente sido visitada, respondeu negativamente, e declarou «que por tres vezes tentara elle ir alli do Bihé, porém que sempre lhe tolhêra o intento a tribu dos Ganguellas.» Elle quasi o conseguiu em 1852, porém foi repellido. Agora (1853) tentou ir ao nascente de Naliele, mas retrocedeu para Barotse, não podendo ir além de Kamko, povoação situada junto ao rio Bashukulompo, a oito dias de distancia. A gente de Porto desejava com ardor obter a recompensa promettida pelo governo portuguez. O não ter sido elle bem succedido, confirmou-me na intenção de ir para Oeste. Porto benevolamente se offereceu a acompanhar-me, querendo eu ir com elle ao Bihé, porém, não acceitando eu, precedeu-me a Loanda, e, estava publicando o Diario da sua viagem, quando cheguei áquella cidade. Ben-Habibe contou-me que Porto tinha remettido cartas para Moçambique pelo arabe Ben-Chombo, que eu conheci; e depois assegurou, em Portugal, que elle mesmo fôra a Moçambique com as suas cartas.»
«Por occasião de encarecer a affeição dos Bechuanas aos filhos, quando estes ainda em tenra edade, diz o dr. Livingstone: «Tive conhecimento de varios casos de avós que amamentaram os netos. Masina de Kuruman não tinha tornado a ter filhos desde o nascimento de sua filha Sina, e não tinha leite depois que Sina fora desmamada, o que costuma ter logar quando a creança tem dois ou tres annos de edade. Sina casou quando contava dezesete ou dezoito annos, e teve dois gemeos. Masina, decorrido o intervallo pelo menos de quinze annos desde que amamentara o ultimo filho, pegou de uma das creanças e a poz ao peito, e o leite correu em tal abundancia, que ella poude só por si alimental-a. Masina contava então pelo menos quarenta annos.»
«As aldéas dos Barotse são construidas sobre defezas, algumas das quaes dizem que foram elevadas [artificialmente] por Santuru, antigo chefe dos Barotse, e, durante a inundação, todo o valle toma a apparencia de um grande lago, com as aldêas sobre as defezas como ilhas, do mesmo modo que succede no Egypto com as aldêas dos egypcios.»
«Terça feira 17 de janeiro (1854) fomos honrados (narra Livingstone) com uma grande recepção por Shinto. Sambanza reclamou a honra de nos apresentar, porque Manenko se achou um tanto doente. Os portuguezes nativos e os Mambari iam armados de espingardas a fim de darem uma salva a Shinto, fazendo o tambor e o trombeteiro todo o ruido que lhes era possivel com instrumentos muito velhos. O Kotta, ou logar da audiencia era uma praça de perto de cem jardas, e viam-se em uma das extremidades dois agradaveis specimens de uma especie de Baniána, (arvore, cujos ramos pendem para a terra, e, tomando n'ella raiz, engrossam e formam novos troncos, etc., «Eçandeira, ou ulemba dos Quimbundos; existem seis especies.») Debaixo de uma d'ellas estava assentado Shinto, sobre uma especie de throno, coberto com uma pelle de leopardo; trajava com véstia variegada, saiote de baeta vermelha agaloada de verde, pendiam-lhe do pescoço muitos fios de contas grossas, e os braços e as pernas enfeitadas de braceletes e varios ornamentos de ferro e de cobre, na cabeça tinha posto uma sorte de capacete feito de contas de vidro entretecidas com primor, e coroado de grande penacho de pennas de pato. Proximo a elle estavam assentados tres mancebos com grandes feixes de settas sobre os hombros, etc.»
O dr. Livingstone censura Manuel Caetano Pereira de ter exagerado egualmente o seu poder. «Indagando eu, escreve Livingstone, se ainda se faziam sacrificios humanos no reino de Cazembe, como no tempo de Pereira, informaram-me que taes sacrificios nunca tinham sido tão communs como Pereira os representara, e que só tinham logar occasionalmente, quando o chefe carecia de certos encantamentos, porque então era morto um homem por serem para aquelle precizas algumas partes do seu corpo.» N'outro logar accrescenta: «O Cazembe além de ser visitado por Lacerda, tambem o foi por Pereira, que deu do poder d'aquelle chefe grandiosa informação, a qual não foi confirmada pelas minhas investigações».