O escriptor conhecia-o eu ha muito, mas de nome e pelas suas obras: essas obras que todos nós temos lido, e esse nome que eu sempre ouvira pronunciar com admiração e respeito.
Se pois, n’aquella occasião, me fosse dado escolher auctor para esse artigo, não podia recahir em outro a minha escolha. Hoje, com mais razão. Tive ensejo de o conhecer pessoalmente, e a fortuna de encontrar nelle um d’aquelles poucos, d’alta intelligencia, que não perdem em serem admirados de perto, e cuja amizade se pode ambicionar como um thesouro: fortuna, digo, por que o é de certo, quando se admira o escripto, que se possa ao mesmo tempo estimar o escriptor; e ainda maior fortuna, quando queremos manifestar o nosso reconhecimento, que nos não remorda a consciencia, previnindo-nos, de que ainda quando digamos mais do que a verdade, ficaremos sempre aquem do que devemos.
Ahi vae o artigo tal qual o transcreveo e remetteo-me de Lisboa o meo bom amigo Gomes de Amorim.
Dresde 30 de Março de 1857.
FUTURO LITTERARIO DE PORTUGAL E DO BRAZIL.[1]
POR OCCASIÃO DA LEITURA DOS
PRIMEIROS CANTOS: POESIAS DO Sr A. GONÇALVES DIAS.
Bem como a infancia do homem a infancia das nações é vivida e esperançosa; bem como a velhice humana a velhice dellas é tediosa e melancholica. Separado da mãe patria, menos pela serie de acontecimentos inopinados, a que uma observação superficial lhe atribue a emancipação, do que pela ordem natural do progresso das sociedades, o Brazil, imperio vasto, rico, destinado pela sua situação, pelo favor da natureza, que lhe fadou a opulencia, a representar um grande papel na historia do novo mundo, é a nação infante que sorri: Portugal é o velho aborrido e triste, que se volve dolorosamente no seu leito de decrepidez; que se lamenta de que os raios do sol se tornassem frouxos, de que se encurtassem os horisontes da esperança, de que um crepe funebre vele a face da terra. Perguntae, porêm, ao povo infante, que cresce e se fortifica alem dos mares, que se atira ridente pelo caminho da vida, se é verdade isso que diz o ancião na tristeza do seu vegetar inerte, e que, encostado na borda do tumulto, deplora, pobre tonto, o mundo que vae morrer!
Em Portugal, os espiritos que o antigo poeta designou pelo epitheto de bem nascidos; aquelles que ainda tentam esquivar-se no sanctuario da sciencia ou da poesia ao pego da podridão dissolvente que os cerca, no meio dos seus generosos esforços chegam a illudir a Europa com essas aspirações do futuro, que tambem nelles não são mais do que uma illusão. As suas tentativas quasi fazem acreditar que para esta nação moribunda ainda resta uma esperança de regeneração; que nas veias varicosas deste corpo semi cadaver de novo se vae injectar sangue puro; que temos ainda algum destino a cumprir antes de nos amortalhar-mos no estandarte de D. João I. ou na bandeira de Vasco da Gama, e de irmos emfim repousar no cemiterio da historia. O desengano chega, porêm, em breve. O talento que forcejava por fugir do lethargo febril que nos consome, retrocede ao entrar no templo, e volve ao lodaçal onde agonisamos. É que a turba que ahi se debate, ou o apupa, ou lhe arroja adiante tropeços, ou o corrompe com dadivas e promessas; e fallando-lhe ás paixões más, ás ambições insensatas, lhe clama: vem refocilar-te no lodo. E, desanimado ou tentado, o talento despenha-se, e attufando-se no charco, acceita as lisonjas ou o oiro immundo, que lhe atiram, embriaga-se com os outros perdidos, e renega da missão sacrosanta, que se lhe destinára no ceu.