Que é feito de tantos engenhos que despontaram nesta nossa terra desde que a imprensa libertada chamou os que sentiam chamejar em si um espirito não vulgar ao convivio das intelligencias? Que é feito dessas tres ou quatro épochas em que, nos ultimos quinze annos, a mocidade parecia querer deixar inteiramente aos pequeninos homens grandes do paiz o agitarem-se, o morderem-se, o devorarem-se acerca dos graves interesses, das profundas questões das bolhas de sabão politicas? Que é feito dessa phalange ardente, ambiciosa de uma gloria pura, que principiava a exercitar-se nas lides do entendimento? De tudo isso; de toda essa mocidade brilhante e esperançosa que resta? Algum crente solitario, que deplora em silencio a queda de tantos archanjos. Os outros sacerdotes, apostatando da religião das lettras, attiraram-se á arena das facções, e manchados pela baba dos odios civis, cobertos da lama das praças, arroxeados e sangrentos pelas punhadas do pugilato politico, desbaratando em esforços estereis a seiva interior, la vão disputando no meio de homens, gastos como a effigie de velha moeda, sobre qual ha de ser a forma do ataúde, e como se talhará a mortalha, em que o cadaver de Portugal deve descer á sepultura. Que outra coisa, de feito, ha ahi sobre que se dispute ainda?

Por isso, quando vejo começar a surgir entre nós um novo poeta; quando oiço a primeira harmonia que sussurra nas cordas de lyra noviça, quizera poder chegar-me escondidamente ao descuidado e inexperiente cantor, e dizer-lhe ao ouvido: Cala-te, alma virgem e bella; cala-te, que estás n’um prostibulo! Olha que elles não te ouçam! Se o teu hymno reboar por essas torpes alcovas, sabe que pouco tardará a hora de te prostituires.

O poeta portuguez d’hoje é a avezinha que enlevada nos seus gorgeios se balança depois do pôr do sol no ramo do ulmeiro pendente sobre o rio. As outras voaram para os seus ninhos, e ella deixou vir a noite, e ficou alli, triste, só, desconsolada, soltando a espaços um doloroso pio.

Poeta, n’esta terra é noite! Por que não te acolheste ao teu ninho? Agora o que te resta é morrer. Vae abrigar-te entre os orbes; vae derramar em canções a tua alma no seio immenso de Deos. Ahi é que sempre é dia.

Nós somos hoje o hilota embriagado, que se punha defronte da meza nas philitias de Sparta, para servir de licção de sobriedade aos mancebos. O Brazil é a moderna Sparta, de que Portugal é a moderna Helos.

Estas amarguradas cogitações surgiram-me na alma, com a leitura de um livro impresso o anno passado no Rio de Janeiro, e intitulado: Primeiros Cantos: Poesias por A. Gonçalves Dias. N’aquelle paiz de esperanças, cheio de viço e de vida, ha um ruido de lavor intimo, que sôa tristemente cá, n’esta terra onde tudo acaba. A mocidade, despregando o estandarte da civilisação, prepara-se para os seus graves destinos pela cultura das lettras; arroteia os campos da intelligencia; aspira as harmonias dessa natureza possante que a cerca; concentra n’um foco todos os raios vivificantes do formoso ceu, que a allumina; prova forças emfim para algum dia renovar pelas ideias a sociedade, quando passar a geração dos homens praticos e positivos, raça que lá deve predominar ainda; por que a sociedade brazileira, vergontea separada ha tão pouco da carcomida arvore portugueza, ainda necessariamente conserva uma parte do velho cepo. Possa o renovo dessa vergontea, transplantada da Europa para entre os tropicos, prosperar e viver uma bem longa vida, e não decahir tão cedo como nós decahimos!

É geralmente sabido que o jovem imperador do Brazil dedica todos os momentos que pode salvar das occupações materiaes de chefe do Estado ao culto das lettras. Mancebo, prende-se á mocidade, aos homens do futuro, por laços que de certo as revoluções não hão de quebrar; porque o progresso social não virá accomettel-o inopinadamente nas suas crenças e habitos. Quando a ideia se encarnar na realidade, o seu espirito como as outras intelligencias que o rodeiam, ter-se-ha alimentado della, e saudará como os seus mais alumiados subditos o pensamento progressivo. Não notaes n’estas tendencias do moço principe um symbolo do presente, e uma prophecia consoladora acerca do porvir do Brazil?

A imprensa na antiga America portugueza, balbuciante ha dois dias, já ultrapassa a imprensa da terra que foi metropole. Ás publicações periodicas, primeira expressão de uma cultura intellectual que se desinvolve, começam a associar-se as composições de mais alento—os livros. Ajuncte-se a este facto outro, o ser o Brazil o mercado principal do pouco que entre nós se imprime, e será facil conjecturar que no dominio das lettras, como em importancia e prosperidade, as nossas emancipadas colonias nos vão levando rapidamente de vencida.

Por si sós esses factos provariam antes a nossa decadencia, que o progresso litterario do Brazil. É um mancebo vigoroso que derriba um velho cachetico, demente e paralitico. O que completa, porêm, a prova é o exame não comparativo, mas absoluto, de algumas das modernas publicações brazileiras.

Os Primeiros Cantos são um bello livro; são inspirações de um grande poeta. A terra de Sancta Cruz que já conta outros no seu seio, pode abençoar mais um illustre filho.