Novo exemplo aqui tens, mísero humano, Que incensas os Altares da vaidade, Aqui te mostro a estrada da verdade, Por onde ao Templo vás do desengano:

De Polyfemo o lamentavel damno, De Galatéa a horrenda falsidade Te excitem a fugir da crueldade, Que he premio certo desse amor tyranno!

Elle consome os bens, a honra offende, O socego perturba, arrisca a vida, E o coração mais livre assalta, e rende.

Ah! Destróe essa mão féra, humicida, Rompe os duros grilhões, com que te prende, Quebra-lhe as setas, ficará vencida.

GALATÉA

EGLOGA.

SEGUNDA PARTE.
DO MESMO AUTHOR.

INTERLOCULORES.
GALATÉA, LAURINDO, E ÁCIS.

GALATÉA.
EGLOGA.

A bella, incomparavel Galatéa, A Nynfa, tutelar, gloria d'Aldêa O seu Ácis perdido busca afflicta: Corre, examina, geme, chora, e grita: "Ácis! Ácis! Meu bem! Onde te escondes? "Eu rouca de chamar-te, e não respondes? "Se nas margens do rio por ti clamo; "Mais foge o rio, quanto mais te chamo. "Se á fonte vou teu nome repetindo, "Ella vai murmurando, e vai-se rindo. "Só este monte de me ouvir magoado, "Se eu te chamo, elle chama, e tu calado! "Ah meu Ácis! meu bem, se inda tens vida, "Soccorre esta, que he tua, assáz perdida. "E se aos campos Elysios já partiste, "Lá verás breve a Galatéa triste. "A ti me ha de ligar a morte crua; Pois tu és a minha alma: eu alma tua.